Alcides Viaja (Pereira Neves)

Contos quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Semana passada falei da morte do Pereira Neves, um dos muitos autores pós-modernos que ganharam certa fama, e que pra mim foi particularmente importante. Aproveitando então a morte do cara resolvi reler a que provavelmente é sua obra mais famosa, Alcides Viaja.

 Não sei quem é, só sei que já sou fã.

Alcides Viaja é uma coletânea de poemas, meio que uma antologia: Apesar da conexão entre eles ser óbvia, não há necessariamente uma ordem correta a ser lida, mesmo com personagens e locais recorrentes. Talvez seja óbvio dizer, mas pra quem não conhece a obra já fica o aviso: Não espere ler sobre o Alcides. Ao todo são 28 poemas, em sua maioria variando entre duas e três páginas. É um livro pequeno e rápido de se ler.

O livro inicia contando a história de uma dona de casa (E se você pensou em Clarice Lispector não está de todo errado), a Marlene, que entre o trajeto da feira para casa acaba por ser testemunha de um crime. O começo do livro é muito simples, e pra falar a verdade tem até uma cara de novela de detetive fajuta, mas a partir do quarto poema, As Cebolas, o livro engata a quinta e aí sim o bagulho fica l0ko: Pereira Neves passa as próximas noventa e tantas páginas contando como um roubo afeta a vida das pessoas ao redor do meliante perpetrador do crime, narrando, personagem a personagem, como uma sociedade desconjuntada não prepara ou obriga as pessoas a fazerem o errado, mas sim como as força a responder ao erro da pior forma possível. Eu sei que o livro já tem mais de trinta anos, mas o quanto menos você souber, melhor.

 É uma imagem melhor que a outra.

Que nem disse no outro texto, quando li o livro pela primeira vez gostei, mas não achei grandes coisas: Na minha mente era um livro sobre um monte de gente sem noção tomando as piores decisões possíveis… O livro é exatamente isso, mas somente anos depois que fui entender o porque do livro ser assim, e o porque dos personagens tomarem as decisões que tomaram. Alcides Viaja ganhou a fama de ser o maior livro do autor, algo que pra mim simplesmente não tem cabimento: O livro é bom, te engaja, te prende, mas definitivamente não é o melhor, título que na minha lista varia entre Sangue Nacional e Por pouco, Amor (Por mais brega que possa soar).

Por ser o livro mais famoso do autor, Alcides Viaja acaba sendo a bandeira do mesmo, então pra quem se interessa, dá pra tirar uma ideia: O estilo de escrita varia bastante nos mais de 50 anos de carreira, mas toda a fase do meio dos anos 70 ao comecinho dos anos 90 é bem parecido, principalmente em relação ao discurso, mais detalhista que no resto… Talvez até por isso a fama: Alcides Viaja é muito mais acessível que a maioria da obra do autor. Não é o melhor (Nem o pior), mas é um dos mais fáceis.

Fazendo este texto eu vinha pensando em dar 10, mas quase me passou um detalhe: O livro é uma das muitas que o autor veio a renegar posteriormente. Adicionando isso ao fato de que, sendo escrito durante a ditadura militar, o que se tem em Alcides Viaja, para os padrões atuais, é arcaico: O tipo de livro que você lê “pra ver como era naquela época”, e não falo isso de um jeito bom. Se o próprio cara que escreveu o treco vira e diz que não faria mal nenhum queimar todas as cópias, por que defender?

Alcides Viaja


Ano de Edição: 1984
Autor: Pereira Neves
Número de Páginas: 118
Editora: Pingo D’Ouro

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