Cromofobia (David Batchelor)

Livros quinta-feira, 09 de abril de 2009

Hoje resolvi mudar.
Não vou falar sobre um livro de literatura, dentro dos padrões com os quais vocês já se acostumaram.
Esse livro é, de uma forma bem geral e distante, um livro sobre arte. Mais especificamente, um livro sobre a cor dentro da arte.
Na teoria.

Na prática, David Batchelor consegue a façanha de passear por pintura, arquitetura, literatura, linguística, drogas alucinógenas e filmes, tudo isso com um objetivo: discorrer sobre a natureza da Cor dentro da cultura humana.
Cromofobia é um livro que surpreende.
Com o intuito de desvendar a origem e as razões do teórico medo (ou aversão) às cores, o autor vai fundo nas principais produções culturais da humanidade – de Moby Dick a Wim Wenders; de Joseph Conrad à mescalina.

Tudo isso, com a seguinte inspiração: a sensação que David sentiu a entrar em determinada casa, de determinado amigo seu, que fora montada por determinada arquiteto que prezava um estilo “minimalista”. O tal “minimalismo”, ou “sobriedade”, para esse determinado arquiteto, estava associado a um domínio quase que total do Branco dentro da construção.
Esse Branco, no entanto, acaba por causar uma sensação de pânico em David.
Algo estava errado – era como se qualquer tentativa de existência humana naquele espaço fosse rechaçada e minada pela Brancura Total do ambiente.
Mas por quê? E por que a sobriedade é necessariamente associada à falta de cores?

Por que, desde as mais antigas escolas de artes plásticas, a cor sempre foi colocada em segundo plano, subjugada pelo traço, pela linha e pela forma? E por que, apesar dessa posição “menos importante”, tantos autores, escritores e teóricos da arte trataram e tratam a cor como algo perigoso, algo que pode corromper e desvirtuar a “alma artística” de determinada obra?

Ao mesmo tempo, em outro extremo, temos uma outra espécie de Queda na Cor, mas glorificada: as experiências de Aldous Huxley com a mescalina, narradas em Portas da Percepção.

Por que tantos arquitetos e artistas, como Le Corbusier, foram fascinados pelas cores vivas do “Oriente”, e voltaram depois para a Europa pregando uma “sobriedade nas artes” e uma tentativa de dominação do colorido?
O que torna a cor perigosa? Ela pode ser controlada?

Cromofobia não responde a essas perguntas.
Na verdade, você fará muitas outras.
Mas sua leitura é fascinante, descompromissada e prazerosa.
Um passeio pela Arte em suas mais variadas formas.

Que estranha tristeza senti ao ver o mendigo vagando pelas ruas com seu roto casaco verde-amarelado. Tive pena dele, mas o que me comoveu acima de tudo foi a cor do casaco, que tão vividamente me fez lembrar dos primeiros passos que dei, ainda criança, na nobre arte da pintura. Aquela era exatamente uma das minhas cores prediletas. Não é deveras triste que essas misturas de cores, que ainda hoje me dão tanto prazer, não sejam encontradas em nenhuma parte da vida? O mundo as considera duras, bizarras […] E eu, que sempre pintei casacos dos meus heróis com inesquecíveis capas verde-amareladas! E isso não tem a ver com todas as cores da infância misturadas? As cores de outrora foram gradualmente ficando fortes demais, duras demais, para os nossos olhos sensíveis.

– Sören Kierkegaard, citado em Charles A. Riley II, Color Codes

Cromofobia


Chromophobia
Ano de Edição: 2007
Autor: Batchelor, David
Número de Páginas: 144
Editora:Senac

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