A Metamorfose (Franz Kafka)

Livros terça-feira, 22 de maio de 2012

Todo mundo já ouviu (Pelo menos eu espero sinceramente que vocês já tenham ouvido) falar sobre a história de um cara que se transforma em barata. Essa história, crianças, foi criada por Franz Kafka, um dos escritores mais importantes do século XX. Suas obras têm como marca a solidão do indivíduo e seu sentimento de impotência diante do poder. Muito bem, é essa a atmosfera do livro A Metamorfose. A falta de defesa de alguém perante uma situação incomum e imutável.

 Kafka [Nota do editor: Ah vá, achei que fosse a barata].

A história começa quando Gregor Samsa acorda se sentindo estranho, e de repente ele percebe que virou uma barata. É, assim, do nada mesmo. Sem explicação alguma. De repente, sua família (Pai, mãe e uma irmã mais nova) simplesmente tem nojo dele, e nem o querem ver por perto. Lógico, o cara virou uma barata! O livro conta então, do ponto de vista dele, as mudanças que ocorrem em sua casa, na sua família e nele mesmo. É muito interessante observar a mudança de comportamento e das prioridades de Gregor. O que antes parecia indispensável acaba se tornando fútil, o que antes era nojento, passa a ser desejável. O restante da família também é afetado, lógico, já que era ele quem mais ajudava no sustento da casa. Logo, numa situação tão bizarra, eles têm que se virar pra se sustentar. E o antes tão querido filho e irmão passa a ser um incômodo e asqueroso hóspede, que eles escondem a todo custo.

No começo, parece que o livro é uma história completamente sem noção, sem razão aparente e você fica pensando: Mas que diabos é isso? Essa foi a minha impressão do livro nos primeiros parágrafos. Mas, como eu acho que todo autor quer passar alguma mensagem em sua obra, eu continuei lendo e pensando em que tipo de mensagem Kafka queria passar. Posso estar errada, pode ser que a minha interpretação do livro nada tenha a ver com a de vocês, ou com a do próprio Kafka, ou pode ser que nem aja interpretação alguma e eu, com a minha mente fértil e que sempre busca razão pra tudo, tenha inventado e visto ligações malucas entre a história e a vida. Mas isso não importa, o que importa é que eu vou compartilhar com vocês essa interpretação (E eu espero que vocês concordem comigo, porque eu estou certa).

Depois de ter começado a pensar no possível significado do livro, pensei melhor no título: A Metamorfose. Caso vocês ainda não tenham feito a 7º série ainda, ou então, sejam simplesmente analfabetos funcionais mesmo, metamorfose é uma mudança na forma, na estrutura e no tamanho do corpo, dos estados juvenis ou larvares de muitos animais, até chegarem ao estado adulto. Lembram-se das aulas de biologia? Da famosa lagarta que vira borboleta? Pois então, o mais clássico exemplo de metamorfose. Uma coisa se transformar em outra. E não é isso o que acontece conosco, desde o momento em que nascemos? Não nos transformamos? Mudamos de aparência, de altura, de peso. Num âmbito maior, conforme amadurecemos, mudamos nossas metas, nossa visão do mundo, nossas opiniões, nossas prioridades, às vezes até nossa personalidade.

 Isso é uma metamorfose, crianças.

Comecei então a relacionar a metamorfose do protagonista à nossa própria mudança, ao nosso amadurecimento como indivíduos dotados de opinião própria, de vontades próprias. Mudamos conforme passam os anos, conforme adquirimos conhecimento e experiência. Hoje meus objetivos, minhas vontades, minhas prioridades, são completamente diferentes do que há 5, 10 anos atrás. Meus gostos mudaram, minha personalidade foi definida. E mudar é meio estranho, tanto pra você, porque está experimentando coisas novas, quanto para os que te cercam, que veem essas mudanças. Às vezes só percebemos essa mudança de forma muito abrupta, da mesma forma que o foi com Gregor. Vamos dormir certa noite e quando acordamos, nos damos conta que mudamos. Nos damos conta que a garotinha ou o garotinho já não existem mais. Nos damos conta que já viramos adultos (Vocês eu não sei, falo por mim…), que temos responsabilidades e deveres, contas para pagar e outras para fazer, escolher uma carreira, uma faculdade, e por aí vai.

Muitas vezes o choque é maior para aqueles que convivem, ou que já conviveram, conosco antes da nossa “metamorfose”, antes do nosso amadurecimento. E às vezes elas simplesmente não acreditam que aquela garotinha quieta, pequenininha e aparentemente meiga se transformou em outra pessoa (Ainda pequena), mas nada quieta, que não tem medo de ir contra todo mundo, que defende com unhas e dentes a opinião dela e que ama rock ‘n roll. É engraçado perceber que a maioria das pessoas que crescem, mudam e amadurecem se transformam em ótimas ovelhas negras na família. É isso aí. A família ou até mesmo alguns amigos tem um modo de pensar ou de agir, e quando seus pequenos crescem, eles não se tornam o que a maioria esperava. Não que tenham se transformado em pessoas ruins (Pelo menos não a maioria, eu espero), mas se transformaram em homens e mulheres com opiniões, gostos e atitudes diferentes do que é o costume da família ou dos amigos de infância. Não que todos que crescem virem ‘ovelhas negras’. Muitos pais educam seus filhos para serem pessoas com uma mente crítica, que sabem a diferença entre certo e errado por eles mesmos (Beijo para os meus pais!). Que sabem que não devem abaixar a cabeça pra tudo ou todos só porque estes estão no poder. Que tem suas próprias convicções e que lutam para defendê-las.

É estranho que muita gente ache ruim alguém ser assim. Parece que as pessoas são muito conformistas, pensar da mesma forma de sempre é bom, é cômodo. E quando um feliz amigo ou membro da família abre os olhos para o mundo, ele é tachado como a ‘ovelha negra’. Da mesma forma que a família do protagonista, a família tenta esconder o filho, primo, sobrinho. Só porque ele se transformou em algo que a família não é ou não aprova. Alguns “amigos” fazem o mesmo. Eu perdi amizades simplesmente por ser a diferente do grupo, a que se não concordava, debatia, se discordava de uma atitude, falava. Nunca tive medo de discordar de todo mundo e ir contra a maré se era por algo em que eu acreditava. E essa atitude afastou algumas pessoas. É ridículo as pessoas não conseguirem conviver com outra apenas porque ela mudou, apenas porque ela não concorda com o que todos querem. A família e os amigos deviam apoiá-lo, ficar feliz por ele. Qual é o problema em pensar diferente? Em ser diferente? Ele continua sendo seu filho, primo, amigo, continua tendo seu sangue, apenas cresceu, amadureceu. Aceitem. Apoiem.

E essa aí foi a minha interpretação de A Metamorfose. Acredito sim que Kafka queria mostrar que todos nós mudamos, mental, física, emocionalmente. Faz parte do ser humano crescer e amadurecer. E que as pessoas à nossa volta precisam aceitar essas mudanças e não achar que a pessoa virou algo repulsivo apenas porque é ou pensa diferente. A família tem o papel de educar, apoiar e mostrar o caminho. Mas será que existe só aquele caminho? Desnecessário eu dizer que não me refiro a escolher o caminho obviamente errado e se tornar um bandido ou um traficante, né? Me refiro a caminhos diferentes do que trilharam nossos pais, tios, ou amigos, mas que vai te fazer feliz, e que mesmo paralelo ao deles, não te torna alguém ruim, apenas diferente. E sim, eu sou a ovelha negra da família.

Aline Freitas é ovelha negra da família, não sabe dar nota pra livro mas jura de pé junto que é gente boa. Pelo menos ela escreve bons textos por vontade própria. Também quer mandar seu texto pra ser publicado? É pra já!

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