Videogame não é (E não deveria ser) história

Games quarta-feira, 12 de julho de 2017

Eu sei que sou tia velha, mas tipo… Eu não sou velho. Isso significa que apesar de ter jogado minha parte do NES, SNES, Mega Drive, Master System e alguns outros, eu não sou da época em que jogo ser difícil era a regra. Não quero entrar nos méritos do quê causava a dificuldade agora, mas é um simples fato: Os jogos, de maneira geral, foram ficando mais fáceis desde aquela época. E eu tô bem com isso. O que eu não tô bem é essa modinha de dizer que dificuldade não importa.

Vou começar chutando a porta mesmo: Jogar no fácil é pra leite com pera criado pela vó. O choro é livre.

Sim, eu sei que essa não é uma discussão exatamente nova, mas aparentemente essa coisa do “eu só quero aproveitar a história” tá sendo levada à sério por gente que acha que videogame é sobre historinha. Não é. Nunca foi.

Videogames são sobre interatividade, ou no jargão, gameplay. Todo o resto é secundário: História, gráficos, áudio, trilha sonora, dublagem, legendas. Videogames são o que são porque te permitem interagir ativamente com o ambiente à sua volta: Uns tem mundo aberto, outros são lineares; em uns você atira, em outros resolve quebra-cabeças. Não importa como, o que importa é o fato de que as suas ações provém o ponto principal da experiência: O seu esforço é o que conta. Aí vem algum filho da puta e manda um

Eu não tenho muito tempo pra jogar e não quero ficar o tempo todo travado numa parte só

CULPA SUA, QUE É RUIM.

Eu jogo pela história, não pelo jogo

VAI LER UM LIVRO.

Mas eu quero jogar

VAI LER UM………………………………….. LIVRO-JOGO. Perfeito pra você que acha que emoção forte demais é perigoso, então cê pode ler o final da aventura antes de começar de verdade.

Mas eu tenho [insira uma deficiência qualquer aqui]

Se fodeu, MAS QUE TAL SE ESFORÇAR PRA CONSEGUIR AS PARADAS?

Eu tenho tanto direito de jogar no fácil quanto quem joga no difícil

TEM RAZÃO, INCLUSIVE É ASSIM QUE AS OLIMPÍADAS FUNCIONAM TAMBÉM: 2020 JÁ TÁ QUASE AÍ, SÓ CHEGA LÁ E PEDE UMA MEDALHA.

Mas eu não tô jogando competitivamente

Claro que não tá. Inclusive ninguém espera que você esteja porque te enfrentar em jogo SERIA CHATO PRA CARALHO.

Eu não gosto de morrer no videogame

Quer um lenço umedecido, bem? Que tal um pouco de talco e um cobertorzinho?

ESSE JOGO É DO INFERNO E EU QUERRO MORRER

Na minha época se você jogasse o controle de outra pessoa era motivo pra levar porrada, quebrar o videogame ou o jogo então… Sem falar na completa perda de respeito que cê ganha com esse seu chilique.

Eu só quero me divertir

Entendo… Às vezes ninguém te contou, então se prepara que aqui vai: SUPERAR DESAFIOS É MANEIRO. Inclusive é muito melhor que ganhar só por ganhar. Mais inclusive ainda, é quando cê faz valer todo o esforço e dedicação. Aliás, falando em dedicação:

Quanto mais rápido eu termino um jogo, mais jogos dá pra jogar

Vou pular todas as possíveis comparações com sexo pra dizer isso aqui de forma clínica: TU É UM ARREGÃO.

Jogar no fácil me deixa aproveitar o jogo como forma de arte

Aposto que cê é o tipo que vai em food truck pra apreciar gastronomia também né.

Eu comprei, com o meu dinheiro, e não é da conta de ninguém

Tem total razão… Exceto quando o jogo é de dois. Ou online. Ou em time. Ou tem ranking. Ou é um MMO. Não que isso exclua 99% de todos os jogos dos últimos 10 anos.

Enquanto eu defendo tranquilamente jogos não terem seleção de dificuldade, eu não tenho problema nenhum com a presença de um seletor: É o jogo te deixando escolher o que melhor se adequa ao que você quer dele… Até o ponto em que escolher a dificuldade significa deixar o jogo uma bosta.

Porque afinal de contas, a dificuldade de um jogo se baseia no que você tem que fazer dentro do jogo: O quão seus inimigos ou oponentes vão propiciar de desafio pra você. Se você não tem desafio, não tem porque ter jogo. Esse desafio não precisa ser do tipo “todas as suas poções tem 90% menos efeito”, o “difícil” de uma parte do jogo não precisa ser o “difícil” de outra parte: Parte integral da progressão do jogo é saber dosar o que ele coloca no caminho do jogar. Do mesmo jeito que eu não gosto de jogos que, ao aumentar a dificuldade, simplesmente fazem você tomar mais dano, eu também não gosto do jogo que me deixa ignorar partes do jogo só porque elas não me apresentam perigo algum. Do mesmo jeito que é ridículo fazer aquele rato nível 1 dar 500 de dano também é ridículo te dar dez vezes mais kits de vida no meio de um tiroteio.

Na verdade eu normalmente começo no normal/médio e vou subindo a dificuldade a cada vez que eu termino o jogo. A validade do mais difícil é o desafio, é ver se você consegue vencer o jogo, mas o mais fácil não tem validade. O jogo literalmente permite que você ignore seus elementos (Sejam eles mecânicos ou de interação direta) só pra completar o jogo. Não há porque jogar CS em que tiros inimigos mal te afetem, não há porque jogar Mário se você tem invencibilidade, não tem porque jogar The Sims se você nunca tem fome ou sono. Videogames requerem sua AÇÃO, você tem que FAZER coisas, e a partir do momento em que você não tem que agir, acabou. Videogame É gameplay: Ele pode te fazer lançar magias ou responder a um colapso emocional de um personagem do jeito certo, mas ele sempre SEMPRE é uma mídia ativa. Transformar o videogame num livro, num filme ou na TV é um erro terrível, que descaracteriza a mídia inteira.

A dificuldade de um jogo, seja ela definida por “easy”, “medium”, “hard” ou qualquer outro nome, deveria ser um reflexo do que o jogo te apresenta ao invés de um seletor do que ele vai te apresentar. Tem partes de jogos difíceis que são fáceis; tem partes de jogos fáceis que são desafiadoras, e isso é legal. Isso é legal pra caralho. O que não é legal pra caralho é ter que fazer conta de matemática pra tentar alcançar a chance mínima da sua party fazer dano primeiro pra depois poder entrar num combo e ter um item de revive pra quando o monstro te atacar. Do mesmo jeito que não é legal pra caralho metralhar o X e ver o tal monstro morrer quase que sozinho porque cê não fez nada.

 Se tem botão é pra usar.

De novo, eu sou tia velha. Eu gosto de vencer no mais difícil, gosto de poder falar que zerei e tudo mais. Eu aprendi a jogar videogame de um jeito em que ser bom jogando videogame era o objetivo, afinal isso significa que você jogou o suficiente pra ficar bom. Significa que, se você derrotou o chefão vampiro foi porque cê mereceu essa vitória, era motivo de orgulho saber que você se superou e superou o jogo. E na boa: Cê não merece a vitória se você não precisa se esforçar pra ela… Mais triste ainda, a vida real é assim também.

E reclame o quanto quiser: Videogame é um treco multiplayer. Seus amigos pedem dicas pra você, cê pede pra eles. Quem zerou mais jogos é foda não porque zerou mais jogos, mas porque botou tempo e esforço neles. Dizer pros seus amigos (E, com a internet, o mundo todo pode ser seu amigo) de que você conseguiu é foda. Claro que cê tá se gabando: E daí? Hoje foi teu dia, amanhã é de outra pessoa. Pra não falar que se a galera descobrisse que cê tava jogando no fácil ia ser zueira até não pedir mais: Friends don’t let friends play on easy. Não é, no fim das contas, uma competição pra ver quem é o melhor (E quando é todo mundo alí definitivamente não joga no fácil), é uma competição pra ver quem consegue chegar até o final e quem não consegue.

Então quem não consegue não merece ganhar nada?

Não, não merece. Ou melhor, merece só uma coisa: Incentivo. Mas tem que se esforçar pra isso, e sem colher de chá.

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  • Matheus Vieira

    Hoje em dia acho que história, sons, audio, etc são tão importantes quando o gameplay, um Mass Effect ou Bioshock não seriam excelentes sem isso. Eu percebi isso jogando Fallout: New Vegas e Fallout 4. O primeiro tem uma quantidade imensa de diálogos, as histórias são excelentes E o gameplay é bom. No FO4 o gameplay é muito melhor, mas os diálogos e a história são…. meh

    Mas também aceito que é possível fazer jogos fodas sem se preocupar tanto com isso, jogos como Kerbal Space Program (fite me bro), Elite: Dangerous, tem zero história, mas são MUITO bons (são jogos de nicho, mas enfim).

    De resto, concordo demais. O Wisecrack fez um vídeo muito foda sobre isso (“Are Video Games RUINING Gaming?” – se eu colocar o link meu comentário vai pro inferno).

  • Loney

    Aí que tá: ter história é incrível, mas se você tirar a história, áudio e todo o resto, cê ainda tem um videogame. Se você tirar o gameplay, não tem jogo.

    E Kerbal é tão jogo quanto Fallout sim.

  • Matheus Vieira

    Eeeeeeehhhhh sei lá, não discordo de você, mas ainda acho que dependendo do jogo esses outros aspectos além do gameplay pesam muito.

    E eu coloquei Kerbal como um exemplo de jogo que não tem história. Mesmo os modos science e career não tem uma (existiu um esqueleto de uma, que volta e meia redescobrem no Reddit, mas não foi pra frente).

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