O Fracasso e o Triunfo de Rei Nicolau I

Contos sexta-feira, 29 de Janeiro de 2016

Era um daqueles dias em que o mundo inteiro parece estar triste. O céu estava fechado e uma fina e persistente chuva insistia em molhar os pedestres, que apertavam-se debaixo de marquises como se o que estive caindo do céu fosse DST e não apenas água. Nicolau olhava para esta cena pela janela quase que completamente embaçada de seu apartamento no quinto andar do edifício Klaus 46, mas não estava prestando atenção no que acontecia diante de seus olhos. Nicolau estava perdido em pensamentos, planejava o futuro e tentava em vão não lembrar dos lamentáveis acontecimentos da noite anterior. Nicolau era um jovem adulto de 26, cabelos pretos, barba curta, olhos castanhos, enfim, era um rapaz bonito e elegante, apesar de naquele momento estar trajando apenas uma cueca frouxa azul. Tomava um café preto com pouco açúcar e esperava suas torradas ficarem prontas, coisa que já tinha acontecido cerca de cinco minutos atrás. Para a sorte de Nicolau, a torradeira que sua mãe havia dado de presente era daquelas que desliga após cuspir as torradas. Se tem uma característica que todos percebem em Nicolau é que ele é bastante distraído. O apartamento de Nicolau era um apartamento completamente comum, meio tedioso e desinteressante, do tipo que se tivesse que conviver em sociedade com outros apartamentos seria completamente rejeitado até mesmo pelas kitnets. Paredes brancas, carpete preto na sala e no quarto e azulejos azuis na cozinha e no banheiro. Era como uma viagem no tempo para 1982.

O transe ponderativo de Nicolau foi interrompido por três batidas na porta. Num susto Nicolau virou-se, correu até o banheiro, colocou um velho roupão vermelho e atendeu a porta. Um ser de pele vermelha, cauda longa, pequenos chifres pretos e olhos amarelos, trajando um belo smoking preto estava elegantemente de pé em frente a Nicolau segurando uma belíssima maleta preta com adornos de ouro, como se fosse lhe entregar um prêmio ou uma intimação judicial.

– Nicolau Magalhães Coelho?

– Sim.

– Assine aqui por favor. – Disse a criatura abrindo a maleta e mostrando o que parecia ser um contrato.

Nicolau tateou o roupão em busca de uma caneta, mas a elegante criatura tinha uma e o emprestou. Nicolau agradeceu com um gesto de cabeça e assinou o papel.

– Parabéns, senhor. – Disse a criatura apertando a mão de Nicolau. – Será uma honra servi-lo.

E em seguida duas mulheres espetacularmente lindas, apesar das peles vermelhas, caudas longas, pequenos chifres pretos e olhos amarelos, surgiram atrás de Nicolau e colocaram nele uma capa de rei, uma bela coroa dourada e entregaram um cetro prateado com o que parecia ser um crânio no topo. Em seguida, como num passe de mágica Nicolau estava sentado em um belíssimo palácio com as paredes revestidas com pele e ossos humanos. O clima não era dos melhores, fazia muito calor, apesar de uma breve chuva de sangue cair de vez em quando do céu negro. Um enorme grupo de pessoas nuas estavam ajoelhadas no chão saudando Nicolau enquanto eram chicoteadas por criaturas vestidas como carrascos medievais e algumas criaturas estranhamente bizarras voavam pelo salão. Não era o melhor lugar do mundo, mas vocês sabem o que o ditado popular diz: É melhor reinar no Inferno do que servir no Paraíso.

Existem duas técnicas conhecidas para se tornar o Imperador do Inferno. A primeira é ser o Anti Cristo e trazer a completa destruição e tormento eterno para a humanidade. A segunda é matar o próprio Satã. Nicolau, sem querer, acabou encaixando-se na segunda alternativa. O que aconteceu foi mais ou menos o seguinte:

No dia anterior Nicolau tinha levantado para ir trabalhar como fez nos últimos cinco anos, tomou seu café da manhã, desceu as velhas escadas do Klaus 46 e caminhou três quadras até chegar ao velho buraco de traças que herdou do pai e insiste em chamar de livraria. Era mais um dia comum de pouco trabalho em uma livraria de quinta, quando Helen Cavalcante adentrou a livraria. Ela era professora do quinto ano e dizia adorar o cheiro de livros velhos. E isso era tudo o que Nicolau sabia porque ela havia lhe contado. Helen talvez não soubesse, mas ela era a garota dos sonhos do Nicolau. Durante os cinco anos que começou a trabalhar na livraria Nicolau a amou em segredo, mas naquele dia ele estava determinado a finalmente convidá-la para sair. Não tinha erro, o máximo que podia acontecer era ela dizer não e tudo continuar como sempre. Não era como se um vórtice negro da dimensão do Caos abrisse-se diante dele e gremlins malignos violassem seu corpo e gargalhassem enquanto devoravam seu coração.

Nicolau respirou fundo e aproximou-se enquanto Helen folheava algum livro velho. Ele não lembra direito o que aconteceu, apenas que sua alma deixou seu corpo voando em um grifo dourado e ele observou tudo do alto enquanto sua casca vazia conversava com Helen. Ele não conseguia ouvir o que eles diziam, mas quando finalmente voltou ao seu corpo ouviu as últimas palavras dela. Naquele momento, não na vida:

– Eu iria adorar. Você pode me pegar às 8?

Nicolau tentou responder, mas só conseguiu assentir com a cabeça como uma criança dizendo ao Bicho Papão que iria se comportar. Helen sorriu e foi embora, enquanto Nicolau permaneceu parado como uma estátua tentando entender se aquilo realmente aconteceu ou era apenas a Velha Gertrudes do 506 lhe pregando outra peça. Convenceu-se de que realmente tinha acontecido, fechou a livraria, correu para a casa, arrumou-se como um virgem que vai a um prostíbulo pela primeira vez, chamou um táxi e passou ao motorista o endereço de Helen. No caminho até a casa dela, o taxista buzinou para todas a mulheres que passaram pela rua, inclusive para uma Górgona e uma Hidra, enquanto fazia um discurso sobre como na época de Hitler era muito melhor e como a homossexualidade é culpa dos vídeo games e vários absurdos mais. Quando chegaram ao endereço de Helen, Nicolau respirou fundo, desceu do táxi, foi até a porta, respirou fundo novamente antes de tocar a campainha, tocou a campainha, a porta se abriu e Nicolau teve uma visão do paraíso.

Helen estava com os cabelos soltos, usava lentes no lugar dos velhos óculos e trajava um lindo vestido preto e um salto alto, enfim, minha mulher saberia descrever como ela estava vestida muito melhor do que eu, mas como ela não está aqui, digamos apenas que Helen estava maravilhosamente maravilhosa. Ao perceber que Nicolau não iria falar nada, pois estava embasbacado com tamanha beleza, Helen sorriu, colocou os cabelos atrás da orelha, trancou a porta e foi até o táxi, sendo seguida por Nicolau em modo zumbi. Não se sabe como, mas o taxista conteve o impulso de businar para Helen, o que nos dá algum tipo de esperança. Houve silêncio, inclusive do taxista, até chegarem ao restaurante.

O Ostra Vermelha não era o restaurante mais chique da cidade, mas também não era nenhuma espelunca. Dava pra comer alguma comida congelada mas com nome impronunciável por um preço não muito salgado. Assim como a comida. Sentaram-se em uma pequena mesa de frente um para o outro. Nicolau finalmente conseguiu dizer alguma coisa, mas não acho que fora em algum dialeto deste planeta. Helen sorriu, colocou as mãos sobre as mãos dele e disse para ele ficar calmo. Nicolau apenas arregalou os olhos, teve um início de ereção e sentiu como se seu coração dançasse Zumba em seu peito.

– Você está linda. – A frase saltou da boca de Nicolau tão rápido quanto o almoço de alguém com bulimia.

Helen enrubesceu e agradeceu tão timidamente que mal pode ser ouvida por Nicolau. O garçom chegou e entregou os cardápios, o que para Nicolau serviu como um ótimo escudo anti choque pelos próximos quinze minutos. Não que ele estivesse em dúvida entre o pato com laranja ou o estrogonefe de camarão, ele apenas tentava encontrar um meio de prosseguir com o encontro sem transformá-lo em um completo desastre. Helen percebeu o que Nicolau estava fazendo e achou graça. Achou também que deveria pedir vinho, uma vez que não há amigo, e inimigo, melhor para um bêbado do que o bom e velho álcool. Quando o garçom chegou e serviu o vinho em duas taças que pareciam ser chiques mas também podiam ser de plastico, Helen gentilmente retirou o cardápio das mãos trêmulas de Nicolau e entregou uma taça para ele. Nicolau tremia tanto que quase derramou o vinho por todo o chão do restaurante. Segurou a taça com as duas mãos tentando diminuir a tremedeira, mas foi em vão. Quando finalmente conseguiu tocar a taça com os lábios bebeu o vinho numa única golada, mais por impulso do que por vontade própria. Lutou para não fazer uma careta, sentiu o peito queimar, o rosto esquentar e corar.

– Você é linda. – Disse Nicolau, agora com total, ou quase, controle do que dizia.

– Obrigada. – Agradeceu Helen, novamente. – Eu pensei que você nunca me chamaria pra sair.

– Eu também. – Respondeu Nicolau enquanto erguia a taça vazia e pedia mais vinho para o garçom.

Apesar da briga de mendigos que ocorria atrás do Ostra Vermelha, por causa do roubo de uma garrafa de cachaça, e uma criança ter pego os pais transando no banheiro, o encontro ocorreu perfeitamente bem até a quarta taça de vinho, quando um dos mendigos foi esfaqueado na garganta, um pai tentou explicar ao filho que não estava machucando a mamãe e Nicolau estragou tudo.

– Será que não devíamos pedir algo pra comer? – Disse Helen um tanto preocupada com Nicolau.

– Pra que comer quando se pode beber?

– Eu sei, mas eu soube que eles têm um ensopado maravilhoso aqui.

– Sabe o que é melhor que ensopado? Vinho! – Disse, ou quase isso, Nicolau enquanto arrancava a garrafa de vinho da mão do garçom.

Helen, apesar de gostar de Nicolau, estava bastante desconfortável com o que estava acontecendo. A única forma dela estar se sentindo pior naquele momento é se ela fosse um mendigo esfaqueado ou um pai tendo uma conversa sobre sexo com o filho. Não se sabe como, mas em algum momento, entre a narração de seu mau relacionamento com a mãe e seus antigos fracassos com garotas, Nicolau percebeu que Helen não estava se sentindo bem.

– Oh, meu Deus, me desculpe. Eu fiquei aqui falando sobre mim e você…

– Está tudo bem. – Disse Helen com cara de quem não estava nada bem. – Mas acho melhor deixarmos isso para outro dia.

– Me desculpe. Eu não costumo fazer isso. Nem beber e nem ter encontros.

– Está tudo bem, mesmo. Podemos fazer isso outro dia. – Helen parecia compreensiva, apesar de desapontada.

– Eu estraguei tudo. – O bêbado depressivo começava a surgir. – Você tem que me dar mais uma chance!

E foi nesse momento que Nicolau começou a chorar e abraçou, se é que pode-se chamar assim, Helen, dizendo que a amava e que ela precisava perdoá-lo. Helen apenas dizia que estava tudo bem, apesar do completo desconforto e da vergonha de todos estarem olhando para eles. Tudo piorou quando Nicolau vomitou no ombro dela. Foram necessários quatro garçons e um flanelinha para tirarem Nicolau do corpo da moça. É claro que no processo de desgrudar Nicolau de Helen, o mesmo acabou rasgando o belíssimo vestido da moça, que saiu correndo do restaurante e entrou no primeiro táxi que passou. Que sinceramente não sei dizer se buzinou pra ela ou não. Apesar das circunstâncias darem a entender que sim.

Nicolau permaneceu ajoelhado no chão durante alguns minutos enquanto era perfurado pelos olhares de desaprovação dos clientes e funcionários do Ostra Vermelha. Se estivesse lá, até mesmo o mendigo esfaqueado e o pai explicando sexo para o filho estariam desaprovando Nicolau. Um dos garçons, porém, era uma pessoa evoluída, e chamou um táxi para levar Nicolau para casa. A chance deste garçom já ter passado pelo mesmo que Nicolau são altíssimas.

Apesar de tudo isso ter sido uma imensa tragédia, havia um ser que estava divertindo-se muito com tudo o que vinha acontecendo naquela noite. Lúcifer, o Senhor das Trevas, Pai de Todo o Mal, gargalhava e dava cambalhotas em seu trono no Inferno. Mendigos esfaqueados e pais flagrados por crianças são coisas corriqueiras para o Cramunhão, mas um iditota estragar algo tão magistralmente certo para ser um sucesso era algo que não acontecia desde o Titanic. Satanás riu e regozijou-se tanto que acabou tendo uma parada cardíaca e veio a óbito. Com a boca escancarada em um sorriso amedrontador e os dentes afiados a mostra, o Demônio estava morto e como dizem por aí: O Rei, está morto, Vida longa ao Rei. O Rei Nicolau.

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