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Contos quarta-feira, 22 de março de 2017

Oswaldo estava aproveitando seu horário de almoço para fazer um favor à esposa: Passar no shopping e retirar uma encomenda feita há algumas semanas. Oswaldo não sabia o que era, só sabia que era importante. Ele, analista financeiro e ela publicitária, eram casados há 12 anos, mas não tinham filhos, e viviam uma vida confortável, preferindo viajar à ter móveis caros e carros do ano. Oswaldo tinha um Corolla 1999.

Na pressa de pegar logo o pacote e ainda ter tempo de almoçar, decidiu deixar o carro ligado. Com os vidros abaixados e o ar-condicionado ligado, Oswaldo se orgulhava em dizer que seu possante era melhor que muitos carros modernos que circulavam pelo calor do Rio de Janeiro: Não era visado para roubos, tinha mecânica confiável e fazia até doze quilômetros por litro no trânsito da capital. Oswaldo foi num pé e voltou no outro, com o embrulho debaixo do braço e satisfeitíssimo por ter conseguido retirá-la na loja sem problema algum. Do lado de seu carro, estava um segurança do shopping:

– É um belo ar condicionado que o senhor tem aí! – Ouviu Oswaldo, muito para sua alegria, afinal não era sempre que alguém compartilhava de seu orgulho automotivo – O senhor que mandou instalar?

– Não, não: É de fábrica! Um excelente ano, 99! – Respondeu sorridente, abrindo a porta e sentando-se no banco.

Foi quando teve uma surpresa. Aquele não era o ar condicionado a que estava acostumado:

– Acho que já baixou uns dois graus aqui no estacionamento – continuou o segurança -, até já botei uma blusa!

Oswaldo olhou o termômetro em seu smartphone: 41°C na capital carioca. Olhou o termômetro no painel do carro: 39°C. Trinta e nove!

– Por acaso alguém mexeu no meu carro?

– Ora, claro que não, senhor. Eu mesmo fiquei aqui o tempo todo e, como o senhor viu, eu só tava parado do lado.

– O termômetro está marcando trinta e nov – não! – trinta e oito graus!

Vinte minutos depois o Toyota já estava cercado por uma pequena multidão que queria fugir do calor da Cidade Maravilhosa. Oswaldo cobrava cinco reais por dois minutos dentro do carro, e já tinha fila de espera. A multidão, é claro, chamou a atenção do gerente do shopping que, após um rápido interrogatório decidiu ficar por lá mesmo, enquanto ligava para as emissoras de TV e rádio: O termômetro agora marcava 31°C.

– Então senhor Oswaldo, o carro é seu?

– Isso mesmo, Renata. Lembro como se fosse hoje quando saí com ele da concessionária!

– E o carro nunca tinha feito isso antes?

– Nunquinha. É claro que eu sabia que era um carro especial, mas eu nunca achei que fosse assim.

– E qual o seu plano pro carro agora?

– Eu e o shopping já tivemos uma reunião: Eu posso ficar aqui o tempo que for, contanto que eu pague o estacionamento. Já liguei pra minha esposa e ela está vindo pra cá!

Enquanto Oswaldo dava entrevistas, o centro meteorológico do Rio de Janeiro captava um ponto de baixa pressão atmosférica. A temperatura da cidade havia caído de 43°C para 37°C em meia hora. As projeções já indicavam que, no final da tarde, o Rio entraria oficialmente num “segundo inverno” em pleno fevereiro, e isso ameaçava até mesmo o turismo durante o Carnaval!

– Alô? Oi, chefe! Não. Não. Aliás, pra mim chega, algo muito melhor surgiu na minha vida! É o meu carro mesmo! Na TV? – Acenou pra fora da janela pro helicóptero – Estou pedindo as contas; minha mulher já pediu também.

– Qual o valor, patrão? – Interrompeu um fura-fila.

– Banco da frente não tem mais – Disse-lhe a esposa de Oswaldo enquanto ele ainda falava ao celular -, banco de trás é R$30 por quatro minutos, porta-malas é R$17, e criança a partir de cinco anos paga também. Olha aqui, nem eu nem meu marido te devemos nada!

Oswaldo voltou para dentro do shopping enquanto a esposa cuidava dos negócios: Ela não iria precisar mais do pacote, então ele ia devolver. Já que estava alí, resolveu também comprar uma jaqueta para ele e a esposa, já que ninguém merece pegar gripe no Rio de Janeiro. Quando voltou, a esposa lhe disse que já tinha triplicado o montante arrecadado desde que ele saíra, mais que o suficiente para ambos se aposentassem e mudassem pro Caribe como sempre sonharam.

– Mas o senhor não pode!

– Ora, claro que posso! É meu carro, meu ar condicionado!

– Mas senhor Oswaldo, Londres, Berlim, Tóquio e Washington já entraram em contato com a gente! São Paulo está morrendo de inveja! Querem levar o carro em turnê já na próxima semana!

– Turnê?! Nada disso! – Objetou outro homem – Senhor Oswaldo, eu sou chefe do do Instituto Nacional de Meteorologia, nessas dezessete horas em que o ar condicionado do senhor ficou ligado o aquecimento global regrediu em uma média mundial de um grau e meio! Acabou de dar na BBC que os especialistas no assunto já tiraram os ursos polares da lista de ameaçados de extinção! O senhor, sua esposa e seu carro não são astros do roque, são filantropos! Protetores dos animais!

– Animais? Senhor Oswaldo, não dê ouvidos à esse abraçador de árvores! Pense no que podemos fazer, os lugares que podemos ver! Acabei de ser informado de que Moscou também já entrou em contato, querem promover uma competição entre o seu carro e a Sibéria, estão oferecendo um prêmio de trinta milhões de rublos!

Foi quando aconteceu. O silêncio. Nenhum dos 28 mil cariocas presentes respirou enquanto Oswaldo e sua esposa se olhavam em terror. Mandaram um garoto correr até a ajuda, e vinte excruciantes minutos se passaram antes que ele retornasse, quando retornou, Oswaldo e a mulher perguntaram-lhe em uníssono:

– E aí?!

– Desculpa aí, ô seu Oswaldo – uma senhora na audiência desmaiou, e tanto o empresário quanto o meteorologista se abraçaram aos prantos -, mas só com esse dinheiro que cê me deu não dá pra comprar mais gasolina não.

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