Retrospectiva: Os 5 melhores filmes de 2016

baconfrito sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

2016 foi um ano complicado em todas as esferas e com a indústria cinematográfica não poderia ser diferente. Inundados por franquias de super-heróis e terror que não se acabam, os cinemas deixaram pouco espaço de tela para tramas com mais estofo e potencial criativo. Essa semana tivemos algumas estreias promissoras, como Animais Noturnos e o drama Estados Unidos pelo Amor, mas falemos deles em 2017. O importante agora é relembrar os bons momentos que passei sem pipoca no colo (Porque sou fitness) e sem refrigerante (Porque não gosto), no ambiente em que me sinto mais feliz e confortável: Uma ampla e gelada sala de cinema.

#5 A Chegada

Um dos filmes mais recentes que conferi nas telonas, conta a história da linguista Louise Banks (Amy Adams), que é contratada pelo governo para traduzir os sinais emitidos por alienígenas que estacionam sobre os Estados Unidos, e compreender qual é o objetivo deles na Terra. Eu já falei sobre a boa impressão que tive quando assisti aqui.

É bem verdade que existe um plot twist, como qualquer boa obra de ficção científica, mas ele não se revela como um tapa na cara aos desavisados. O espectador monta o quebra-cabeças diante da história em curso e, mais importante do que desvendá-lo, é compreender a mensagem que o longa de Dennis Villeneuve, baseado no ótimo conto The Story of Your Life, de Ted Chiang propõe, não apenas sobre as escolhas que fazemos, mas também sobre como escolhemos. Não é exatamente meu favorito, mas bebe da fonte de grandes ídolos literários do sci-fi e fica melhor sempre que penso/falo/reflito sobre ele. Foi um dos grandes acertos de 2016.

#4 Maresia

Eu não lembro de ter resenhado um único filme brasileiro esse ano, o que não significa que não prestigiei. Tivemos bons exemplos, como Mãe Só Há Uma, de Anna Muylaert, baseado no caso Pedrinho, rapaz sequestrado na maternidade que descobre, no auge da adolescência, que sua origem não é a que acredita; Aquarius que acabou trazendo consigo uma forte discussão política que refletiu na indicação ao Oscar, sendo deixado de lado em detrimento do fraco Pequeno Segredo e, meu quarto lugar, o delicado Maresia.

O longa de Marcos Guttmann conta, em paralelo, a história de dois homens: Emilio Vega, pintor desaparecido há décadas, e o perito de arte Gaspar Dias, obcecado pela obra do primeiro. Ambos os personagens são defendidos brilhantemente por Julio Andrade, uma escolha inteligente, a única possível, para representar o fascínio do perito sobre Vega.

Na trama, acompanhamos o trabalho de Gaspar, que reconhece a autenticidade de obras em uma galeria de artes e é especialista nos trabalhos do mítico Emilio Vega. Suas convicções desmoronam quando recebe a visita de Ignacio (Pietro Mario), que se diz amigo do pintor, colocando em xeque todo o conhecimento que ele pensava ter sobre o ídolo. Na busca por respostas, conhecemos os amores, as inspirações e a trajetória do artista, em duas linhas do tempo distintas.

Baseado no livro Barco a Seco, de Rubens Figueiredo, Maresia é tão dúbio, quanto poético. Transmite a constante sensação de estarmos pisando em solo desconhecido e, como a própria sinopse entrega, é um mix entre passado e futuro, falso e verdadeiro. A bela locação à beira-mar e o elenco talentoso que acompanha Andrade, como Vera Holtz e Álamo Facó, contribuem para a qualidade dramática, equalizando perfeitamente uma boa narrativa com uma boa química.

#3 Agnus Dei

Polônia, 1945. A estudante de medicina francesa Mathilde Beaulieu (Lou de Laâge) é enviada ao país pela Cruz Vermelha para auxiliar no tratamento de sobreviventes da guerra. Um dia, no meio do caos, ela é surpreendida por uma freira, desesperada por ajuda. Apesar de ser orientada a cuidar apenas dos franceses feridos em combate, ela acompanha a jovem até o convento local e se depara com uma situação que jamais imaginaria.

Esteticamente perfeito, Agnus Dei afronta os limites da crença e da fé e traz a tona o melhor do ser humano, através da coragem das freiras e da médica que as assiste, e a pior versão, aquela capaz de tudo para manter as aparências. A linha tênue entre o que somos e o que queremos ser, independente das circunstâncias que nos são impostas no caminho, é o carro-chefe de um filme marcado pela tristeza e hipocrisia.

Enquanto A Chegada oferece esperança diante da inevitabilidade das alegrias e tristezas e Maresia confere paz, mesmo com os conflitos de Gaspar em relação à Vega, o longa de Anne Fontaine revira o estômago e entala a garganta enquanto acompanhamos as freiras perdendo a principal virtude da juventude: A inocência.

#2 O Clã

O Clã foi lançado no final de 2015, mas como assisti no início de 2016 vai entrar na minha lista, sim. O longa argentino de Pablo Trapero conta a história real da família Puccio que, apesar da aparente normalidade, carrega nas costas uma série de sequestros perpetrados contra importantes empresários na década de 80. Com o pacing típico dos filmes argentinos, que não te enfiam a trama goela abaixo, acompanhamos os dilemas éticos que envolvem os personagens, em meio a tanta violência e ação na medida certa.

A ótima cinebiografia foi premiada em diversos festivais, quebrou recordes de bilheteria e veio para consolidar de vez o mercado audiovisual dos hermanos, que se destaca pela qualidade de filmes como O Segredo dos Seus Olhos, Relatos Selvagens e Tese sobre um Homicídio, provando também que nem apenas de Ricardo Darín é feito o cinema argentino. O que não deixa de ser uma pena.

#1 A Bruxa

A medalha de ouro do meu ranking não poderia ter ficado para outro filme. Quando foi lançado, fiz uma resenha tecendo mil e um elogios ao debut de Robert Eggers e continua sendo o melhor filme do ano.

A envolvente trama de horror protagonizada por Anya Taylor-Joy, na pele da jovem Thomasin, que poderia ter saído facilmente das lendas sangrentas compiladas pelos Irmãos Grimm, foi duramente criticada por seu formato, ausência de sustos e pela teatralidade. De fato, não temos poltergeists voadores, mas é uma história desconfortável, marcada por constantes rompimentos. Desde a tensão familiar causada pelo sequestro do caçula, o questionamento de todas as respostas através da religião, a descoberta do feminino (E não da feminilidade) e a personificação do mito da bruxa, bem como a escolha de Eggers de quase cruzar alguns limites e inferir temas polêmicos de forma natural, diante da situação em que os colonos se encontravam, fazem de A Bruxa uma obra prima.

Entendo que a linguagem e o formato, sejam – de fato – atípicos para o público médio que consome terror, mas é preciso lembrar que são elementos condizentes com o tempo e o local onde a história se passa. É uma trama rica, com um ótimo elenco de, até então, desconhecidos, uma fotografia de tirar o fôlego e resolução coerente. Envolvente e tecnicamente perfeito, fica como legado do que deu certo em 2016.

Menções honrosas

– Acabei perdendo Lights Out de vista nos cinemas, mas conferi em casa essa semana e confesso que, de tão pouco que esperava, acabei gostando muito. Falei do curta que inspirou o longa, que é bem divertido, mas não investe na origem da entidade, que é o ponto alto da trama estendida de David F. Sandberg. Não é o melhor filme do ano, mas consegue prender a atenção e, apesar de apelar para clichês desnecessários, em geral o resultado é positivo.

Rogue One foi minha última incursão cinematográfica do ano. É bom, mas poderia ser melhor, se reduzissem o rol de personagens, para você conseguir dar fucks e identificar quem faz o que. Grande parte da qualidade de um filme reside na sua conexão com quem está na telona e, apesar de seus méritos, o novo filme da saga Star Wars falha nesse aspecto.

Com um elenco de crushes, como Mads Mikkelsen, Riz Ahmed – protagonista da ótima minisserie The Night Of -, Ben Daniels, o padre galã feio homão da porra da série O Exorcista e o maior de todos: Ben Mendelsohn, o antagonista de Bloodline, minha série favorita de todos os tempos, é uma pena que o melhor personagem de todos seja um robô.

Melhor pessoa.

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