Realfabetização

Livros quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Não me lembro a última vez que peguei um livro para ler. É, pois é. Acho… Acho que foi ainda em 2016. A última vez foi há meses e meses atrás, e, creio eu, que muito da prática costumeira que construí através dos anos se perdeu: Leio mais devagar, preciso de mais atenção, tenho que reler mais vezes. E isso era algo que, pro meu eu de 2014, era impensável não só porque eu gosto de ler, mas porque, na época, era a coisa mais importante que eu fazia.

Como já dizia o poeta, meu namoro é na folhinha a vida é feita de fases; em um momento cê tá de cabelo cobrindo o olho e munhequeira com espinhos e no outro tá frequentando aulas de reco reco pra sair no bloco de carnaval. Não sei dizer sobre o resto, mas ao menos no que tange minha relação com o Bacon a coisa é a mesma: Entrei aqui pra escrever sobre livros, já rodei UI todos os outros temas, e vira e mexe sempre acabo na categoria inicial, talvez por afinidade, talvez por ser um certo porto seguro (E, talvez, só por falta de assunto no resto).

Lá pro começo do ano me dei conta de que após anos e anos lendo quase que constantemente, sempre com um livro na cabeceira da cama, uma lista à cumprir, eu tinha me enchido o saco. Não parei de ler, afinal há sempre um texto novo na internet, um material pra uma aula, alguma notícia, mas me enchi o saco de ler livros. Nunca fui de ler jornal e revista, mas, atualmente, tendo de escolher, ainda prefiro ambos aos livros: Não tem relação com o tamanho, peso, juntar pó e nem nada disso, mas sim com a questão de dedicar tempo e energia à atividade da leitura. Atualmente leio o que preciso ler, não mais por prazer.

E tem mais: Ganhei tempo com isso. As horas e horas que eu dedicava à leitura agora posso dedicar à qualquer outra coisa. Se isto fosse um texto inspiracional eu diria que limpo a casa, faço almoço, lavo roupa, sou voluntário e que participo de passeata, mas não só eu continuo sendo vagabundo como meu fervor contra auto ajuda e massagens no ego continua inalterado. Eu tenho tempo pra coçar o saco. E ver TV, dormir na rede, sair pra comprar uma porcaria qualquer: Até mesmo consegui, em pleno 24 de dezembro, entrar numa livraria, escolher um presente e não olhar pra mais nada. Tudo bem que eu demorei uns 20 minutos pra escolher um único livro, mas fazer o quê? É um processo.

Vou ser um pouco mais sincero que isso. Nestes últimos meses já tive vontade de ler.

 2007 mandou lembranças.

E o que me parou foi a simples falta de material de leitura. Não no mundo, claro, mas na minha prateleira: Tenho vários volumes aqui que ainda não li, só que não os li até agora… E não sei quando vou querer lê-los. Porque a gigantesca maioria das coisas legais de ler já foi (A menos que você curta estudos sobre o racismo, holocausto e exercício da lei no Brasil), do mesmo jeito que já foi minha fase de gastar dinheiros e dinheiros todo mês em livros (Li todos que comprei, diga-se de passagem). De vez em quando aquela coceira da leitura aparece, mas, tal qual tua esposa faz contigo, basta ignorar que ela passa. Eu sei que estou chegando num ponto em que voltarei a ler mais, mas a verdade é que não ler é absurdamente mais fácil.

Taí a verdade: Não ler é fácil. Me sobra tempo, me sobra paciência, me sobra energia, me sobra dinheiro e ninguém me interrompe pra perguntar alguma coisa sem importância. Até parece que eu tô me gabando, mas diferentemente de ficar rico, este método para o sucesso é infalível mesmo: Pare de ler e você pode ser que nem eu.

Seria muito, muito bom conseguir escolher a ignorância, mas essa escolha, esse lapso, tá começando a encher o saco. EU estou começando a encher o meu saco, e como todo mundo no Bacon pode confirmar eu já sou irritante normalmente. O problema é que eu não aprendi a atingir um ponto de equilíbrio nesta questão: Ou eu leio ou não leio. Não consigo fazer como tantas outra pessoas e ler uma hora antes de dormir, botar o livro de lado e só pegá-lo no dia seguinte: Eu viro noite, leio quando deveria fazer um monte de outras coisas, fico naquele eterno “só até o final do capítulo”. E acho isso tudo incrível. Gosto disso tudo, mas não é sustentável, e não posso mais me dar ao luxo de relegar outros deveres e tarefas ao segundo plano.

Este texto todo na verdade serve pra eu me lembrar que, em breve, sentirei falta do que tenho hoje, essa disponibilidade que o não ler propicia. Não vai ser amanhã e nem semana que vem, mas sei que em breve vou pegar algum livro qualquer e me acabar lendo-o… Hoje mesmo descobri que, ao contrário de anos e anos atrás, agora há versões de um livro que quero por cinquenta mangos. Cinquentinha. Coisa que, na época, só importando e pagando algumas centenas de dólares. Vou sentir falta do que tenho hoje… Mas vai valer à pena.

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  • Eu também tenho lido cada vez menos com o passar dos anos, só que no meu caso sinto muita falta, mas deixo minha atenção ser totalmente roubada pela internet no tempo que teria disponível pra leitura e quase nunca fazendo algo realmente interessante, só vegetando e matando o tempo entre feeds e timelines :/

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