Não.

Contos quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Esta é uma história sobre lobisomens e aranhas gigantes. E aí entra um dragão.

 Contrata-se loiros e loiras porque tá foda.

É um belo dia no mais digníssimo dos estados do nosso grande e glorioso Brazil: São Paulo. Em tais abençoadas terras, há uma agitação: Por motivos além da capacidade humana de compreender, pessoas que devotam tempo e energia de suas vidas entre bits e pixels concordaram, por mútuo acordo, ceder às expectativas sociais e, numa rápida e louca decisão, abandonar mouse e teclado para então sair ao sol. O dia paulistano abençoa a cútis destes nobres aventureiros, a brisa refresca seus semblantes enquanto marcham, cada um de um lado da grandiosa cidade, para um pré determinado encontro em um ponto comum.

Dos arredores da capital e do interior do estado vêm dois dos elegantes membros de tão graciosa comitiva, espalhando em sua passagem ares de renovação e sucesso, convergindo em digno passo. Por ironia do destino, como nada pode ser perfeito, os bons ares do coração do país são muito levemente manchados por distantes nuvens à pairar no céu, e junto delas, de terras longínquas e devastadas, os membros restantes do belo séquito rumam em direção aos nobres camaradas dantes descritos. Acostumados ao clamor da guerra e às maravilhosas paisagens naturais de além, os estrangeiros olham ao seu redor com espanto e admiração pelas incríveis acomodações que um metrô de respeito provém. Em seus narizes o fudum, em suas faces o encanto.

Após longa e cansativa viagem os galantes e bravos herois enfim adentram as portas de tão prestimoso estabelecimento. Com um rápido floreio de mãos, chamam o taberneiro que corre à mesa para não deixar tal elite esperando. Os quatro então prosseguem em enumerar seus desejos, confiando que o patrão não lhes faltará com honra e respeito e esforçar-se-á em satisfazê-los. Sendo deixados a sós, os membros então se cumprimentam, relembrando alegremente tempos idos, antigos debates e escaramuças, memórias jovens e velhas de tanto tempo passado em companhia uns dos outros, porém, ao mesmo tempo, distanciados pelo destino e seus deveres.

Não demora para que o tão gentil criado retorne com os pedidos do gracioso cortejo, colocando à mesa comes e bebes de tão ampla variedade que os quatro não têm opção senão observar, com gozo e deleite, que suas expectativas não só foram cumpridas, como excedidas. Em alto e bom tom é a risada do bando, clamando atenção dos demais frequentadores e até causando uma pequena pontada de bem intencionada inveja nos corações daqueles que não podem compartilhar de tal reunião. O júbilo, porém, é contagiante, e não demora para que patrões e lacaios dividam o gáudio dos quatro grandes.

Passadas as iniciais congratulações e reminiscências, o grupo então converte gracejos em analíticos questionamentos e risos em carrancas de inigualável austeridade. Não tema pois, uma vez que tal mudança não se dá por presentes malefícios e nem mesmo por iminentes contendas. Não, os campeões deixam de lado a bufonaria em favor de urgente tópico, uma longamente aguardada jornada até os mais distantes confins de mundos inexplorados, através de mares e desertos, contra monstros e assombrações, contando unicamente com suas próprias habilidades e recursos, numa gigantesca empresa em busca de glória, fortuna, realização e imortalidade.

Os conquistadores se preparam então, angariando energias e recursos, concentrando-se e refletindo. Não é pouco o ardor da esperança em seus corações, mas também não são pequenos os riscos que irão correr, e em algum lugar de suas mentes, mesmo que eles não admitam para si e uns para os outros, os jogadores sabem que o fracasso encontra-se a cada curva e cada buraco, em perpétua vigilância, esperando até mesmo o menor descuido ou deslize, e o fracasso é terrível em sua ganância, mas ainda pior em seu triunfo. Os herois sabem disso, mas seguem em frente, relegando tais pensamentos para escusos arcabouços: Não há espaço para dúvidas e hesitações na vida que eles escolheram, pois o MAL não questiona ou vacila.

Findos os preparativos, o grupo tem apenas uma última tarefa à realizar: Olhar para trás, para os seguros portos de sua origem, e imortalizar em suas memórias cada curva e reta, cada folha e seixo, cada melodia e bálsamo de uma paisagem que poderão jamais voltar a contemplar. Suspiram os quatro, cada qual sabendo que na alma de seus companheiros já se instaura a saudade do que ainda não lhes escapou. Mas é chegada a hora, e devem eles tornarem-se para o seu norte, e é o que fazem. Aos portões do celeste abrigo eles rumam, e lá, olhando para o caminho à frente, fazem uma última parada: Uma última concessão aos seus temores. Por um momento, mais rápido que o bater de assas de um colibri, os aventureiros pensam em desistir, mas tal possibilidade se esvai mais rápido do que surgiu. Em suas frontes, um novo sorriso se instala, cheio de expectativa e promessa. Eles ajustam suas fivelas e passantes, trocam olhares e, em harmonioso movimento colocam os pés na estra-

E aí já tá ficando tarde e daqui à pouco vai ficar foda voltar pra casa. Semana que vem pode ser?

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