Não mande uma mulher fazer o trabalho de um homem

Cinema quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Caça-Fantasmas desceu rasgando mais que dinamite pangaláctica e trouxe junto todo um novo carregamento de “polêmicas”, que se ajuntaram com as últimas tendências no mercado de tretas que só gente sem louça pra lavar consome… Como minhas louças tão todas lavadas resolvi que é melhor botar meu palito símbolo fálico de cabeça vermelha no meio dessa discussão. Vou até iniciar outro parágrafo aqui.

Remake/reboot com inversão de gênero é a puta que me pariu. Sexista isso? Bem, acho melhor botar todas as cartas na mesa de uma vez só.

 Mas ninguém reclamou das brancas ficarem na frente, né?

Deixa eu começar com aquele disclaimer padrão nessas situações: Eu não ligo mínima pra Caça-Fantasmas. Não esse, o de 1984. É pois é, atualmente é crime falar esse tipo de coisa, mas é a verdade. O filme não é grandes merdas, os desenhos e jogos da franquia eram ruins e foda-se o Bill Murray. É, é isso mesmo: Foda-se o Bill Murray. E fodam-se os outros três também. Caça-Fantasmas é um filme dos anos 80 com uma ideia legal, e é só isso. Não merecia sequer a continuação de 89, quanto mais toda essa puxação de saco dos últimos 30 anos. Tem um motivo pelo qual quem viveu nos anos 80 chama aquilo de “década perdida” e já é mais do que hora da cultura pop entender isso.

Agora que a base foi estabelecida, vamos pra segunda parte das considerações prévias: Eu não assisti o novo filme e nem vou assistir. Não porque tem um time de mulheres nele, mas porque, como dito acima, Caça-Fantasmas não merece o meu tempo. Aliás, considerando o quanto idolatram o filme original, é um tanto corajoso das quatro atrizes (E de qualquer um) topar fazer essa nova versão. Porque se formos ser sinceros, poderia ter qualquer um nesse filme, até mesmo os atores originais todos (E o cadáver-ventríloquo do Harold Ramis), e ainda não daria certo. O mimimi é inevitável e não fora de razão, já que este novo filme jamais se compararia ao original de qualquer jeito (O que provavelmente diz muito sobre Hollywood), nem mesmo se fosse um filme melhor.

 Este texto é patrocinado pela Michelin Brasil®. Nota do editor: Quem me dera.

Findas as estruturas do resto do texto, vamos falar da atualidade e das nossas necessidades: Remake de Caça-Fantasmas é totalmente desnecessário. Aliás, pode colocar na lista 95% de todos os remakes já feitos no cinema também, incluindo o vindouro remake de Onze Homens e um Segredo também com a mulherada nos papéis principais (Que, diga-se de passagem, vai ser remake do remake). Não sabia dessa? De nada. O mundo não precisava de outro Caça-Fantasmas do mesmo modo que não precisava de Zathura, do Homem-Aranha do Andrew Garfield e de, perdoe-os pai, Zombieland 2.

Mas bem, taí os bagulhos né, então já que não há mais nada o que se fazer, vamos lidar com eles. Acontece que a zona tá tão fora de ordem que, no meio do furacão de futilidade que o cinema virou nos últimos anos, um pensamento vem aflorando mais que os outros: Cinema é lugar pra comício. Já tive a infelicidade de ir em alguns comícios na vida e lhes garanto que não tenho a mínima intenção de pagar vinte pila pra assistir um que dura duas horas. Porque eu não sei vocês, mas eu gosto da minha arte sem política. Ou, se você não curte chamar qualquer coisa de arte, eu gosto do meu entretenimento sem política também.

Não que eu tenha algo contra política; não sou desses que cita deputado como exemplo de que a política seja ruim, mas o pivô dessa história é que a política não é um assunto dessas obras. Política, como assunto, não só é extremamente válido para uma obra como, dentro da nossa sociedade, extremamente necessário: Seja através do cinema, da TV, de teatro de rua ou do humor, a política deve ser debatida, exemplificada, vaiada, ridicularizada e, no fim das contas, levada à sério. Da política ou se fala sério ou se faz piada, com um pouco de sorte ambos ao mesmo tempo, e isso é ótimo.

O problema, o meu problema, é que nenhuma dessas obras é sobre política. Simplesmente não é sobre política. É, na verdade, uma panfletagem oportunista do caralho.

Porque se você realmente acredita que um estúdio de cinema liga a mínima para a “representação da mulher” no cinema, primeiramente vá pra puta que te pariu, e segundamente você não assistiu filmes o suficiente. E eu sequer falo de filmes dos anos 50, falo de lançamentos atuais, feitos e lançados na mesma época desses tantos outros filmes “pró-mulher”, que não fazem absolutamente nada que esses filmes fazem. Longe de mim reclamar de loiras peitudas fazendo topless na praia enquanto o tubarão-unicórnio assassino está à espreita, mas se você quer me dizer que isso não denigre em absolutamente nada o seu outro filme sobre a mulher ser chefe da família no meio da palestina, meu amigo, a conversa pode parar por aqui.

 Escrevi essa última parte acima de sacanagem, mas é claro que a internet pensou nisso antes que eu.

Desde que o tópico da representação feminina na mídia e nas artes começou a ganhar força uns anos atrás bastante coisa já rolou: O debate nunca foi mais relevante do que é agora, e como não poderia deixar de ser, ganhou e ganha adeptos o tempo todo, afinal, quem não gosta de bons personagens? E olha só: E se bons personagens tivessem peitos?! É pra glorificar de pé, sim! Maaaaaaaaaaaaas, no bom e velho estilo de botar a culpa no capitalismo, é claro que seria só uma questão de tempo pra galera se dar conta de que apoiar qualquer merda que “represente corretamente” a mulher seria uma boa ideia não só de marketing, mas de vendas também. Ser do bem dá mais dinheiro que ser cristão, pode acreditar.

E aí que juntando esse bom mocismo barato com essa onde de falta de criatividade, ganhamos Caça-Fantasmas. Se você comprou aquele discursinho de “os personagens serão interpretados por mulheres pra distanciar do original” você, no mínimo, decidiu fazer uma lobotomia caseira em si mesmo, já que remake que distancia do original não faz nenhum sentido qualquer: Remake existe justamente pra enganar otário que gosta do filme original. Eu não sei se o elenco de Caça-Fantasmas aceitou fazer esse treco porque acharam que seria uma boa opção de carreira fazer parte da franquia ou se foi só pelo cachê mesmo, mas garanto a qualquer um: Não foi pra representar porra nenhuma. Porque é muito conveniente ter motivos nobres e virar mártir depois que tá chovendo merda na tua cabeça. E o mesmo vale pro Bill Murray, pro diretor Paul Feig (Uma mistura de Bill Gates e Pee-wee Herman, esse filho da puta), pra produtora Village Roadshow Pictures e pra Columbia Pictures.

Quer fazer filme sobre política? Ótimo! De verdade, vai em frente, pesquisa a parada, se esforça. Se o filme for bem feito, interessante e não quiser me catequizar, tô dentro. Porque eis os mais graves problemas quando se trata de filme político: Primeiro eles são um saco, depois eles são ruins e, pra encerrar, são total e completamente parciais. Não que eu acredite na total imparcialidade de obra alguma, mas se a sua obra é um horário eleitoral disfarçado eu vou passar bem longe. De resto, tamos aí, bora botar a coisa toda em pauta mesmo.

Acontece que gender swap passa LONGE PRA CARALHO disso tudo. Não só porque quem os faz (Produtores, artistas, distribuidores, etc.) não ligam a mínima pra engajamento sociopolítico, mas porque todos eles são completamente desnecessários. É um filme que não precisava existir com homens, e é um filme que não precisava existir com mulheres, só que com mulheres tem o agravamento de querer enfiar na minha goela esse discursinho hipócrita de machismo e patriarcado. Se Hollywood ligasse mesmo pra machismo e patriarcado no cinema faria filmes sobre isso, não botar um bando de buceta jogando raio laser em assombração e chamar isso de feminismo.

Porque, caso não seja óbvio, é isso que Caça-Fantasmas sempre foi: Um bando de marmanjo atirando laser em fantasma. Não tem “viés” algum nisso. Inclusive, se tem uma década sem viés político e social algum é os anos 80, e o único viés que teve foi o político: Lucro. Os heróis da sua infância queriam carro do ano e mansão na praia. Continuam querendo hoje, do mesmo jeito que essa gente de hoje toda quer, só que a de hoje é chamadas de pioneira, líder de movimento e exemplo de vida.

É preciso dizer aqui, porém, que não só um monte de gente boicotou o filme por ter um elenco feminino como também houve o monte de ataques contra a atriz negra Leslie Jones, tanto que o filme tá indo mal nas bilheterias e não deve ter continuação. Então vamos fazer as últimas considerações a favor desse filme aqui: Racismo é ruim, ok? Ok. Boicotar filme por causa de gênero é ruim, ok? Ok. São dois motivos de merda pra não ir no cinema (Só no resto do texto tem uns três melhores), seja prum filme bom ou prum filme ruim. Sei lá, pelo menos arranja uma desculpa plausível pro seu comportamento babaca.

Não ligo pra Caça-Fantasmas, seja este reboot, seja o antigo. Do mesmo jeito que não ligo pra reboot algum, seja com homem, mulher, macaco, animação 3D ou captura de movimento. Não quer dizer que nunca vou assistir nenhum desses filmes na vida, só não é uma prioridade, não vou pagar para isso e nem mesmo gastar tempo baixando. Tirando o fato de serem caça-níqueis eu não teria mais nada contra nenhum desses filmes, com ou sem inversão de gênero. Quer fazer um novo Mercenários só com mulher? Em primeiro lugar, QUE MERDA, em segundo FODA-SE. É um filme de mulheres atirando em outras mulheres porque é muito incrível explodir coisas. E sim, é muito incrível explodir coisas. Mas isso não é um avanço pras mulheres, não é feminismo, não é uma mudança em Hollywood, não é uma nova era no cinema. Ninguém dá um rasante num hidroavião com uma metralhadora no bico pra matar capanga de ditador porque isso vai ajudar a mostrar que a objetificação da mulher é danosa e antiética já que cria um subconsciente coletivo de desvalorização do gênero feminino.

Não há vergonha nenhuma em abraçar o entretenimento puro e simples, do mesmo jeito que é totalmente legítimo e necessário abraçar o debate político de problemas sociais, mas os dois não dá. Essa história não só não cola como não vende. Talvez não venda pelos motivos errados, mas pra quem tá pouco se fodendo pra posicionamento moral não vai fazer diferença no porquê de a sua conta bancária estar mais vazia.

Mas já que eu “falei mal” de Caça-Fantasmas vou fechar isso aqui do mesmo jeito sexista do resto do texto: Ter mais peitos no cinema é sempre muito legal. Só que nem peitos nem discurso de igualdade me faz pagar ingresso (E se fizesse seria nos cinemas pornôs do centro de São Paulo).

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  • Nelly Kruczan

    Representatividade é muito importante e só entende isso quem não tem. Então ver um bando de mulher “fazendo trabalho de homem” com laser nas mãos é bacana. Atrizes fora do padrão sendo bem sucedidas e fazendo humor (que é relativo, sim, mas fazendo) é bacana para quem sonha com isso.

    Enquanto profissional, é importante ver mulheres na minha área a frente de produtoras, agências, sendo fodonas, ganhando bem. Dá coragem pra seguir em frente, porque é isso o que eu quero ser. Representar o papel que designaram para mim no momento do nascimento tá é muito pouco pras minhas ambições.

    E gender swap não é a resposta, mas um caminho para a reflexão sobre a “pobreza” dos papeis femininos no cinema, que geralmente focam na sexualização, suposta fragilidade, ou o plot gira em torno de um homemzzZZZz. E nossa vida não é assim.

    O ideal é que essa inserção não fosse “forçada” ou obrigatória, ou marketing em pleno 2016. Torço para termos mais bons filmes pensados por mulheres, escrito por mulheres, dirigidos por mulheres, protagonizados por mulheres e feitos para mulheres.

    E menos remakes e mais roteiros originais, pfvr.

  • Loney

    Aí é que tá: gender swap é sempre marketing. A representatividade não é explorada no gender swap porque este se baseia sempre em duas coisas: (a) ser um remake (b) com mulheres.

    Concordo contigo em todo o resto: no humor, agências, sálario, etc. porém o cinema não faz uma reflexão sobre os papéis femininos. O público pode fazer (se bem que o que mais faz é enredar na briguinha homem vs mulher), mas o cinema em si, os diretores, produtores, atores não fazem. Sejam estes homens ou mulheres (mesmo que, claro, aí entre a questão da grande maioria masculina no meio). É diferente, por exemplo, quando a ex do James Cameron ganhou como melhor diretora (dele inclusive) por Guerra ao Terror de quando essa reflexão é resumida à “fulana vai fazer o papel que era do Brad Pitt” porque “mulheres podem roubar cassinos também”.

    Como você mesma disse, “nossa vida não é assim”. E se a vida da mulher no cinema for sempre fazer ou a donzela em perigo ou o rebote de algo que um homem já fez, véi, que vida de merda.

  • Pedro

    Gender swap é marketing, de fato. Apenas desejo de faturar usando uma ‘marca’ já conhecida, aliada a alguma polêmica fácil e estéril.
    Se houvesse algum interesse em representatividade, criariam outros personagens, mesmo que fossem inspirados em outros personagens antigos. Há alguns anos, a Tia Carrére estrelou um seriado chamado Relic Hunter, claramente inspirado em Indiana Jones. Só que o personagem dela tinha outro nome, ela não ‘era’ o Indiana Jones. Isso gerou alguma polêmica? Não. Da mesma forma que a Ladybug, uma super-heroína de um desenho do canal Gloob, é inspirada no homem-aranha, mas é personagem diferente, o que não gera polêmica.

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