Fecharam-se as portas da Fantástica Fábrica de Chocolate

Cinema terça-feira, 30 de agosto de 2016

Estive conversando com um amigo sobre as mortes que presenciamos nos últimos tempos e chegamos a conclusão de que essa é a era em que nós, beirando os 30 anos — ou passando deles — perderemos nossos ídolos. O objeto da conversa, no caso, era o roqueiro Flávio Basso, falecido no final do ano passado, mas se aplica perfeitamente ao gênio da comédia Gene Wilder, que faleceu por complicações do Mal de Alzheimer aos 83 anos para deixar a segunda-feira mais amarga do que de costume e, agosto, mais desgostoso. O cara era duro na queda, havia combatido um Linfoma na década de 90, mas superou a doença e continuou ai na atividade, como deveria ser. Dessa vez não deu.

Lembrado principalmente por encarnar nas telonas Willy Wonka, de A Fantástica Fábrica de Chocolate, o ator, além de diretor e roteirista, teve uma carreira diversificada, com personagens muito mais interessantes do que aquele que o eternizou, sempre pautada pelo humor e o deboche. O primeiro filme que assisti com ele foi O Jovem Frankenstein (1974), quando dividiu a tela com Marty Feldman, em uma paródia do best seller de Mary Shelley dirigida por Mel Brooks. Na minha opinião, uma das melhores comédias já produzidas por Hollywood. Duas dúzias de vezes são poucas para o tanto que o vi. A dobradinha Brooks-Wilder também aconteceu em Os Produtores (1968) e Banzé no Oeste (1974). Graças a eles desenvolvi meu senso de humor. Monty Python só veio depois. Portanto, se as vezes eu pareço meio off, a culpa é toda da minha socialização enquanto fã. E como ela não falha, não há nada que eu possa fazer a respeito.

HASHTAG MELHOR FILME

Outro de seus maiores sucessos, pelo menos um dos mais marcantes em minhas memórias afetivas, foi A Dama de Vermelho, lançado em 1984. Nele, Gene reprisou a antológica cena de Some Like it Hot em que o vestido de Marilyn Monroe levanta com o vento. Mas, em vez de um vestido branco, Kelly Le Brock ornava um vestido vermelho que, ao mesmo tempo em que homenageava a mais bela mulher do cinema, enaltecia as diferenças de personalidades entre a Sugar Kane de Monroe e sua Charlotte. Impossível dissociar as duas mulheres. Na trama, Wilder – que acumulou as funções de diretor e ator – é Teddy Pierce, um homem correto, conhecido por seus valores e retidão, mas que cede aos instintos quando desenvolve uma paixão platônica pela bela protagonista. Se o longa per se não é tão conhecido pelo público, sua música-tema, I Just Called to Say I Love You, estourou em todas as rádios da galáxia e garantiu um Oscar de Melhor Trilha Sonora Original a Stevie Wonder.

Com uma bagagem de mais de 30 filmes e, coincidentemente, quase o mesmo tempo de carreira, excluindo trabalhos para TV e teatro, onde também brilhou, seu último trabalho no cinema foi um live action de Alice no País das Maravilhas no ano de 1999. Mais do que um meme (Viu, Pizurk?), quebrou paradigmas estéticos e artísticos com sua inesquecível atuação em A Fantástica Fábrica de Chocolate, desafio diferente de tudo visto em sua filmografia. Tanto não teve medo de ousar em sua carreira que transformou o infantil de Roald Dahl, outro degenerado, em algo próximo a um filme de terror fantástico designado para maiores de 21 anos.

Deixarão saudades o primeiro e único Willy Wonka que valeu a pena conferir nos cinemas, Leo Bloom, o contador de todas as más ideias do tão absurdo, quanto maravilhoso Os Produtores, além de seu dr. Frederick Frankenstein – ou Fronkensteen, como prefere ser chamado – envergonhado pela fama da família de juntar pedaços de corpos por ai. Mas, principalmente, fica a gratidão e a admiração pelo gênio por trás dos personagens que interpretou e escreveu. Pelo legado de Wilder para o gênero de comédia, em suas parcerias impecáveis ou em voo solo e pela alegria ácida e inteligente que transmitiu nos últimos 30 anos.

Mas nada de lamentar. Não nos interessamos pela morte, afinal. A única coisa que nos preocupa é a preservação da vida. Certo, dr. Fronkensteen?

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