Eu quebrei, o resto tá tudo bem

Livros quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Eu tenho um problema: Eu não consigo escrever no horário que eu escrevo melhor. Não me refiro ao Beico não, pra internets escrevo em qualquer horário, me refiro à minha máquina de escrever. Os mais velhos nesse site aqui lembrar-se-ão dela. Pois então, não consigo escrever nela.

Essa coisa toda é uma tr3ta loka. Tem gente que se importa muito com seus “rituais”, costumes e hábitos no que toca o exercício de algumas atividades: Tem gente que gosta de correr pela manhã, tem gente que assiste jornal do meio dia e tem gente que lê antes de dormir. Com a escrita o bagulho é mais ou menos o mesmo e, se você se interessar, é fácil, fácil achar os costumes de grandes escritores: Desde gente que acorda às quatro da matina pra passar a manhã escrevendo até gente que curte mesmo é escrever de pé, porque cadeiras são muito mainstream. Aparentemente tem uma galera que ainda acredita no new wave e acha que copiar a rotina de gente de sucesso faz algum sentido.

Como não sou nenhum dos dois, eu gosto mesmo é de escrever de noite, indo até a madrugada. E é aí que eu não posso usar a máquina de escrever, porque obviamente aquela porcaria faz um barulho infernal. No computador qualquer hora é hora, à mão também, mas na máquina, tem que ser à noite, lá por volta das nove, dez, se estendendo até as três, três e meia. É o meu costume: Madrugada adentro, numa cadeira dura mas confortável, sem celular, tela, música ou qualquer outro afazer. Só que eu não consigo esse estado propício já tem pra mais de ano.

 A máquina é velha e as piadas também.

E a culpa é minha, eu sei que é minha. E, claro, se eu precisar realmente escrever alguma coisa e só tiver a máquina por perto, é claro que vai nela, mas o problema não é simplesmente botar palavras no papel; se eu precisar fazer um ofício pro cartório é fácil, o problema é a fatídica criatividade, a inspiração. Eu não consigo sentar em frente à máquina de escrever às quatro da tarde e escrever um conto boboca, por exemplo. Simplesmente não rola. Minha criatividade funciona quando não preciso dela ou quando não posso exercitá-la, vide o talento para piadas ruins que venho desfilando por aqui há anos.

Além da minha frescura e do condicionamento que todos acabamos por impor à nós mesmos, essa história diz ainda uma terceira coisa, e que vem me chamando atenção nos últimos tempos: Como a interação com o “método de entrada” influencia no resultado e até mesmo no processo de criação de qualquer obra. O que eu escrevo na máquina (Ou escrevia) é quase que completamente diferente do que escrevo na internet, seja no Bacon ou fora dele. É um estilo diferente, tem uma certa “calma”, tanto em termos de linguagem quanto de conteúdo, ao passo que na internet o que escrevo costuma ser mais direto, mais pontual e, de certa forma, mais agressivo. E olha que meus 15 anos já foram tem um tempo.

Essa relação meio-obra pode ser notada muito mais facilmente quando o meio utilizado não é exatamente fácil de se trabalhar: Seja com runas ou hieróglifos, escrever em pedra é difícil. Do mesmo jeito que as coisas eram diferentes antes da prensa ser inventada ou quando o material de escrita era carvão e barro. Jamais teríamos a Mona Lisa em Lascaux. Porém a relação não é, necessariamente, para pior: Alguém acha que Machado de Assis faria um trabalho melhor se tivesse um notebook? Ou se o conteúdo de um livro é ditado pela diferença ao toque entre teclado e caneta? O grande ponto é que o método influencia no autor, e dalí para a obra… Uma vez que a obra parte do autor, os materiais à sua disposição funcionam como um filtro (Ainda que de menor importância) sobre a obra final.

Eu só estou frustrado.

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