As “pornografias” de Clarice

Música terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Vendo a repercussão do novo vídeo de Clarice Falcão para a música Eu Escolhi Você, onde pênis e vaginas deram o que falar e a própria cantora afirmou que seria mais um motivo pra tretar no Natal, sendo que ninguém com mais de 35 anos sequer sabe de onde a moça surgiu, me dei conta de que sou fruto de um casal liberal. Minha mãe é psicóloga, o pai é médico. Eu não lembro de quando eu descobri a origem dos bebês e, certamente, não saberia dizer com que idade eu vi meus pais pelados pela primeira vez, porque era todo dia. Desde sempre lembro deles me dando banho, saindo do banheiro pra pegar alguma coisa que esqueceram. Todo mundo nu. Porque não há nada mais natural e humano que a nudez. A relação familiar que se construiu diante do que é considerado um tabu, mas não aqui, foi de plena confiança.

Quando eu menstruei pela primeira vez, minha mãe não estava em casa. Corri chamando meu pai, que olhou aquela borra marrom e bateu o martelo: Isso é sangue. Pragmático, telefonou para o consultório e pediu que minha mãe trouxesse, na volta, um pacote de absorvente porque ele procurou e havia acabado. Ela trouxe, me ensinou a usar e o resto é história. Não teve constrangimento familiar, ninguém saiu espalhando aos sete ventos que eu havia ficado mocinha. Eu só tenho a agradecer aos meus pais por ter chegado aos 28 anos sem achar que piru e vagina são ofensivos ou, tampouco, achar que o corpo é motivo pra causar. Já experimentou colocar um óculos no topo de uma piroca? Ela fica parecendo um narigão igual ao que você tem no meio da cara. Fucking hilarious.

Há quem prefira chin balls. Questão de gosto.

O que me ultraja nessa história toda é a letra horrorosa e contraproducente da compositora, que basicamente fala que escolheu o parceiro na base “não tem tu, vai tu mesmo” e o desperdício de história com algo que é absolutamente normal. Quando eu era adolescente e ainda comprava CDs e DVDs porque o Napster levava uma eternidade, existia no site da MTV uma espécie de cardápio, onde você colocava o nome do clipe que queria ver e descobria quando, se e em que horário iria passar. Eu colocava o despertador para tocar no meio da madrugada e conferia aqueles sons que não passavam na programação normal. Apaixonada por cinema, sempre fiquei encantada com muitos dos clipes. Os enxergo como curtas, que contam a uma outra camada da história, complementando a música. Criados para algo além de provocar um boom midiático.

Se o vídeo de Clarice Falcão tivesse pirocas e bucetas com carinhas tristes desenhadas por estarem em um relacionamento acomodado, frustrado, sem paixão, tudo bem. O que não entra na minha cabeça é um pirucóptero enfeitado como uma árvore de natal celebrando um namoro bosta. Porque, sim, o refrão é exatamente esse:

Eu escolhi você porque
Não tinha tanta gente pra ser meu
Vê só que sorte você deu
Dos males o menor
Porque você é o melhor
Ou melhor, o menos pior pra escolher

Essa é a mina feminista que se borra de batom vermelho falando para o público que escolhe homem em pleno 2016, quase 17, sob os parâmetros usados pela minha avó nos anos 50 e coloca órgãos genitais na tela pra sair na mídia pagando de moderna. O cara da música só é legal, não deixa ela nem com a calcinha molhada, então tem órgão genital dançando por que mesmo? Não há nada de groundbreaking em exibir os países baixos. Mais triste do que os requisitos de Clarice para selecionar dates, é que as pessoas – incluindo ela – ainda achem que o corpo é motivo pra ter vergonha, algo a ser escondido, ferramenta de marketing para alavancar produtos ruins. Nada como uma boa história e um trabalho bem feito para ser reconhecido pelo o que você faz e não, simplesmente, ser reconhecido, seguido de um ponto final.

Em vez de quebrar a cabeça pensando em como chocar a família tradicional brasileira, que, repito, dá zero fucks pra ela, Clarice deveria se reinventar musicalmente e parar de produzir músicas iguais com letras diferentes. Vaginas e pênis dançantes, lambuzados de tinta, não consolidam uma carreira na indústria fonográfica. *E conselho de mana pra mana: Procura um parceiro (Ou uma parceira, não vamos estabelecer metas) que te faça querer planejar pequenas surpresas diárias e ir à Renner todo mês renovar o estoque de lingeries.

Nota do editor: A Renner não pagou nada pela divulgação. Infelizmente.

Que videoclipão da porra!

*Entendo que a letra seja irônica e critique a obrigação, diante da sociedade, da mulher ter um homem do lado sem importar qual. Ela só está contando a história de muitas meninas que se envolvem com qualquer pessoa só para dizer que têm alguém. Mas desculpa ai, fandom. A música, e o vídeo, continuam sendo péssimos.

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