Apostando em crimes da vida real, Netflix transforma Amanda Knox em documentário

Primeira Fila segunda-feira, 03 de outubro de 2016

Esse texto era pra falar do Festival do Rio, mas vou ficar devendo mais essa pra vocês. Por um bom motivo. Ontem me deparei com o perturbador documentário Amanda Knox, que saiu fresquinho do forno da Netflix diretamente para minha TV, e não consigo pensar em outra coisa. Para quem não lembra sabe da história, a jovem americana, então com 20 anos, foi acusada, em 2007, junto ao namorado Raffaele Sollecito, de ter assassinado a britânica Meredith Kercher, com quem dividia uma casa na belíssima Via della Pergola, Perugia, onde ambas faziam intercâmbio. Seus modos foram o primeiro passo para a presunção de sua culpa, que demonstrava – de acordo com as autoridades – frieza em relação ao caso. Após análises de DNA, encontraram três perfis em peças-chave: O de Amanda, de seu namorado e de Rudy Guede, imigrante com histórico de invasão domiciliar e assassino confesso da estudante. Foram quatro anos de prisão até a revisão da sentença. O caso se estendeu por oito anos, até que a Suprema Corte Italiana inocentou de uma vez Knox e Sollecito. Mas o estrago já estava feito na vida pessoal dos envolvidos. Ainda está.

Não acompanhei os acontecimentos de perto na época, apesar de sempre ter tido uma queda por crimes mirabolantes da vida real. Ele envolvia, majoritariamente, três países: Estados Unidos, Inglaterra e Itália. A cobertura midiática foi gigante, mas no Brasil o caso não pegou como lá. Contudo, pelo o que li ao longo dos anos, ela era constantemente pintada como egoísta, devoradora de homens e alguém em quem não se poderia confiar. She-devil. Pelo o que acompanhei na internet até pouco tempo, especialmente na subreddit Unresolved Mysteries, sua inocência ainda era nebulosa e gerava muitas dúvidas. Até ontem.

Ao contrário de Making a Murderer, que faz o impossível para provar a inocência de Steven Avery, de forma que chega a ser desonesta, Amanda Knox não utiliza artifícios ou manipulações. Apresenta, junto às evidências que foram decisivas para inocentar o casal, os personagens centrais da história sentados em frente à câmera, se abrindo como em um divã, de forma nua e crua. Alguns depoimentos são surpreendentes, outros de partir o coração. É difícil assistir a injustiça desfilando impune diante dos seus olhos e saber que nada foi feito porque não era interessante. Nem para a mídia, nem para a polícia.

No filme, Amanda conta como passou mais de 40 horas depondo, sendo questionada, em loop, sobre a mesma pergunta, em uma língua estranha, chegando a apanhar, perdendo a noção da realidade. Rafaelle sofreu a mesma pressão e corrobora com o desabafo da ex, afirmando que contou apenas o que os policiais queriam ouvir. As táticas opressivas de interrogatório, usadas para desestabilizar grandalhões da máfia, foram o suficiente para desmantelar a saúde mental dos estudantes. De repente, todas as lentes se viraram para a bela americana, apelidada pela imprensa de Foxy Knoxy, imputando a ela a responsabilidade pelo estupro supostamente coletivo sofrido por Meredith, usada como peão em uma investigação que mais parecia um número circense do que vida real.

Uma das figuras mais atrozes é a do policial Giuliano Mignini, responsável pelo caso. Arrogante, diz com todas as letras que se inspira em Sherlock Holmes para tocar a carreira. Até um cachimbo ele ostenta em frente ao tribunal em uma das gravações da época. Mas o personagem do Conan Doyle não é responsável pela segurança e destino das pessoas, porque ele não trabalha pra polícia e sequer existe. Não são necessários nem 10 minutos de filme para ele começar a se enforcar, julgando os modos “anarquistas” da jovem, a frieza diante da morte da colega, que conhecia apenas há 3 semanas, e seus “hábitos sexuais”. Esses, conhecidos pelo grande público, quando seu diário prisional vazou misteriosamente da cadeia para os tabloides. A insanidade da polícia era tão grande que, após um exame de sangue, contaram a Amanda que ela havia sido infectada com HIV. Assustada, listou em seu caderno o “imenso” número de sete homens com quem transou, tentando recordar com quem havia, ou não, usado preservativo. No fim das contas, era uma forma de tortura para fazer com que confessasse um crime que sempre insistiu não ter cometido. Essa atrocidade ninguém consegue explicar, ou justificar, aos documentaristas.

Mignini foi, inclusive, investigado por abuso de poder no caso do Monstro de Florença, serial killer que matava casais flagrados fazendo sexo em seus carros entre o fim da década de 60 e os anos 80, algo aparentemente comum em Perugia. A repercussão negativa manchou sua imagem, então ele precisava solucionar um crime como o de Meredith Kercher a qualquer custo. Um repórter envolvido no caso do assassino em série, que chegou a ser investigado pelo promotor, veio a público manifestar seu repúdio a forma como o julgamento de Knox e Sollecito foi conduzido, dando detalhes sobre sua própria experiência com as autoridades italianas.

O jornalista Nick Pisa, que teve grande papel na cobertura britânica do caso, não esconde o orgulho por ter colecionado tantas primeiras páginas em 2007. Ele representava o Daily Mail, um dos jornais mais malvistos da Inglaterra. Hoje trabalha no The Sun, outro tabloide de pouca confiabilidade entre leitores. Sem vergonha ou ética, relata como o caso era perfeito, com uma bela americana assassinando uma bela inglesa em um jogo sexual que deu errado. O assassino confesso não chamou muita atenção. O foco era Knox. Precisava ser. Por isso, justifica jamais ter questionado suas fontes sobre as informações fornecidas, as provas e as supostas evidências. Ele apenas disparava notícias, utilizando imagens que, isoladamente, nada significavam, mas que se encaixavam perfeitamente na história que queria contar. Frio, jamais se responsabilizou pelas consequências dos seus atos. Porque, se não fosse ele, seria o colega. E quem em sã consciência perderia tempo apurando informações se pode dar um furo? Jornalista nenhum, segundo ele.

Após quatro anos de prisão, o casal fez a primeira apelação e as inconsistências grotescas da investigação vieram a tona. As autoridades italianas foram de envaidecidas para furiosas com o julgamento da mídia, que passou a mirar na incompetência da equipe de Mignini. O tom das reportagens mudou. Crucificada quando foi condenada, Amanda passou a receber apoio dos Estados Unidos. Seu namorado não ganhava muita atenção, a personalidade interessante continuava sendo ela. Sempre foi. Ele foi um artifício da acusação para explicar o inexplicável, já que um era o álibi do outro. O caso ainda se arrastaria por mais quatro anos pois, aparentemente, a Itália tem um jeitinho diferente de julgar os crimes. Mas a convicção da promotoria se quebrara, assim como a confiança do público e das principais instâncias do país.

Enquanto assisti, gritei com a tela, revoltada pela ingerência da polícia e o mau jornalismo exercido durante o caso, em completo estado de perplexidade. Me perguntava a todo o tempo de onde tinha saído tanta misoginia e xenofobia. Ainda me pergunto. Porque o fato de ser mulher, bonita, americana e gostar de fazer sexo foi justamente o que a encarcerou. Fiquei triste pela transformação de Amanda Knox, antes espontânea e vibrante, agora uma mulher séria, assustada e, especialmente, muito cuidadosa com o que fala. Lamento também pelo esforço que ela e seu ex-namorado precisam enfrentar todos os dias para refazer uma vida que jamais deveria ter se desmantelado na tentativa de limpar o nome não na justiça, mas perante a sociedade. E, sobretudo, pelo completo esquecimento de Meredith e a violência que sofreu, afogada pelo sensacionalismo e ofuscada por uma caça às bruxas sem sentido.

Amanda Knox é um documentário necessário porque, enquanto conta uma história absurdamente interessante com riqueza de detalhes, perpassa por questões do nosso cotidiano como a arbitrariedade da justiça e a sociedade do espetáculo. Mas, principalmente, veio para consolidar, de forma definitiva e publicamente, sua inocência e dar paz a todos os envolvidos. Ou, ao menos aos que interessam: As famílias Knox, Kercher e Sollecito. Pro inferno com o resto.

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