A Terapia da Perda

Contos quarta-feira, 12 de outubro de 2016

É a primeira vez em muito tempo que uso isto aqui, e é por isso que as coisas saem escritas erradas. É falta de costume, mas acertá-las é apenas uma questão de prática e memória. E reconfigurar as travas da máquina. Isto é, se eu lembrar como se faz isso. E parece que deu certo.

A experiência é familiar: A cadeira dura e reta, nada como a do computador (Até a postura melhora), as falhas na escrita das palavras por conta dos mecanismos tradicionais e a fita de tinta velha, o barulho a cada tecla, eventualmente o sino no fim da linha (Cujo medo faz com que as palavras não se alinhem no final de cada linha) e, por fim, a regressão à um estilo de escrita totalmente diferente do habitual, mais difícil, imperdoável, não personalizável. Gosto disso aqui porque me obriga a reparar nos meus erros, e a de fato trabalhar com minhas capacidades e limites. A palavra gráfica é “visceral”, mas prefiro “sincera”… Até mesmo “cruel” soa melhor.

Minha máquina tem suas particularidades: Meu computador, meu celular são meus por uma questão de histórico memorizado, configuração, mas esta máquina aqui é minha, única e irresetável. Ela me obriga a pensar em formatação e em não digitar rápido demais para não travar (Algo que esqueço com frequência, talvez um reflexo do choque entre o velho e o novo). Me faz escolher melhor as palavras e até mesmo me torna quase canhoto, escrevendo com todos os dedos da mão esquerda mas só com o indicador da direita… Não faço isso num computador há mais de 15 anos. O “i” maísculo é o um, as letras maiúsculas não podem ser acentuadas corretamente e tenho que segurar o rolo a cada troca de linha, caso contrário o papel gira em falso. Escrever nisto aqui é uma experiência que apenas esta máquina poderia proporcionar, e isso é incrível. Pelo menos pra mim.

Preciso de inspiração para escrever, e essa inspiração normalmente vem da reflexão posterior acerca do “mundo lá fora”. Pra mim o mundo é motivo de estudo, e a partir dele se cria (Ou recria) o novo, mas não há interação entre os dois: Primeiro a experiência exterior, depois a construção textual.

E a cada erro e cada falha, meu o da máquina, a ferramenta de trabalho, se dá esse novo. Não uma experiência, mas um novo ponto de vista, uma nova ideia, um novo fio de pensamento: Cada caractere escrito aqui me dá uma nova forma de ver, pensar e, quem sabe, reagir ao mundo lá fora. Sou uma pessoa que precisa de tempo próprio para pensar, me organizar e digerir o outro e o alheio. Já que meio que fui forçado a tirar um tempo da rotina nada melhor que aproveitar para fazer o que gosto e preciso fazer: Ver o mundo lá fora pessoalmente e não pela janela (Esse instrumento que, para mim, é quase como um log de uso), e então entrar e colocar as coisas no papel. Papel de verdade neste caso.

Escrever não me esgota, mas esgota meu estoque de material, meu estoque pessoal de assuntos, novidades, notícias, temas. Escrever esgota minha inspiração e minha capacidade de ficar inspirado. Para escrever preciso do mundo lá fora, mas para o mundo lá fora preciso de energia, tempo, dinheiro, transporte, eventos, oportunidades e timing: Preciso de férias do mundo para escrever e férias da escrita para o mundo.

A falta desse equilíbrio é minha culpa, eu sei, mas às vezes é difícil reparar nela estando do lado de dentro da janela. Mais tarde este texto deixará a inexorabilidade da tinta e do papel para ganhar pixels (Algo que não era meu intuito original), então é bom deixar gravado desde já, antes da formatação e da edição, que o mundo lá fora só funciona porque tantas e tantas vezes o mundo de dentro ou é acessório ou é vítima. Se tivessem mais pessoas como eu no mundo o mundo lá fora não existira, e o mundo de dentro seria mais saudável, mas mais pobre.

Dizem que a linguagem é a mais poderosa ferramenta concebida pelo homem porque nos permitiu criar a documentação, a comunicação, a troca e o comércio, e até mesmo nos deu a capacidade de enganar o tempo e a morte: A linguagem nos permite abrir nossa janela e deixar o outro nos olhar e a nós olhá-los. Talvez o conhecimento que isso traz seja irresponsabilidade, e há quem diga que conhecimento é poder, mas sem a ação nada acontece: O mundo de dentro, o qual eu e tantos outros colocamos para fora é inerte, esperando o mundo lá fora nos dizer o que fazer. Dançamos a música de uma orquestra na qual tocamos um único instrumento, e dependemos dos demais para saber quando soar e quando silenciar. No fim, o maestro dá apenas sugestões.

Gosto disso aqui porque cada ação tem um som, uma nota, um barulho, uma parte do mundo de fora do lado de cá da janela (Porque não sou hipster para sair com este treco por aí, parando em bancos de praça para fazer o que deveria fazer do lado de dentro, ignorando meus deveres exteriores). Usar uma máquina, esta máquina, borra a linha divisória que eu próprio tracei em minha maneira de viver o mundo lá fora e o registrar aqui dentro, uma documentAÇÃO. Talvez soe bobo (E é um recurso gráfico extremamente boto este aí), para mim soa como partes de metal trabalhando em sincronia, acertando uma fita colorida e imprimindo por pura força bruta um pouco de tinta no papel. Às vezes a tinta sai errado, mas o barulho sai sempre certo. Já faz tempo que abdiquei da ideia de que tenho bom gosto musical.

Uma das particularidades das máquinas é esse péssimo gerenciamento de espaço, algo automático no digital, então tudo aqui parece maior, mais importante, grandioso. É só impressão. Assim como se diz que a TV não mostra cheiros, um texto pronto não mostra a parte mais importante de si: Seu processo de escrita. Quem ler estas linhas (Principalmente após serem passadas para o computador) não terão a oportunidade de ouvir o som de cada letra, de saber como cada tipo enganchou em outro, e nem quando tive de apertar o botão “retrocesso” para botar uma letra que saiu muito apagada no meio de uma palavra. Nem mesmo eu, o autor, me lembrarei de cada uma delas, mas ao menos as experimentarei ao menos uma vez. Gosto disso aqui porque ao menos parte destas coisas ficam salvas no papel (Infelizmente a máquina não possui itálicos e tenho que adivinhá-los depois).

Nestes últimos dias o mundo lá fora me chamou (Ou quase isso) e cobrou seu preço no mundo daqui de dentro. Eu estava precisando. Mas agora estou de volta, e para dizer que não esqueci a lição aprendida (Ou melhor, relembrada), agora faço meu trabalho nesta máquina, que para mim representa o meio termo entre o lado de cá e o do lá melhor do que qualquer outra coisa. Por que não à mão? Tem eu demais nisso: Por aqui tem o mundo lá fora, o mundo de dentro, a orquestra, a janela e a chance de misturar isso tudo em letras comidas, espaços desiguais e pontuações estranhamente mais escuras que e o resto. Isso, pra mim, é um “bom dia”, e é lindo.

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